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Expresso

Estas coxas roçam uma na outra

Pois roçam. E uma das primeiras coisas que Ashley Graham fez quando, esta semana, recebeu em mãos a boneca Barbie inspirada no seu próprio corpo, foi precisamente confirmar se as coxas de plástico eram grossas e se se tocavam. Depois, espreitou a barriguinha, e lá estava ela, tal como o rabo largo e torneado. Ficou a faltar a celulite – um dos vários pedidos da modelo quando lhe apresentaram a proposta de uma recriação sua em Barbie – mas esse era um pormenor demasiado complexo e que acabou por ficar de fora. O resultado final: uma mini Ashley Graham que todas as meninas podem ter enquanto exemplo prático (e idolatrado) de como não existe um volume único e expectável no que diz respeito ao corpo. Para se ser belo, este não tem obrigatoriamente de contar com pernas delgadas, rabo pequeno, cinturinha de vespa, peito avantajado e barriga totalmente lisa. Também pode ser, - claro que pode! - mas para a maioria das mulheres do planeta simplesmente não é assim. E não há mal nenhum nisso.

Sejamos francos: a famosa Barbie fomentou durante décadas a tal imagem corporal inalcançável com que nos deparemos todos os dias nas mais diversas plataformas. Aquela boneca, em jeito de mulher, era mais um estereótipo de medidas perfeitas, que nos entrava casa adentro, a nosso pedido, pelas mãos dos nossos próprios pais (sem qualquer maldade!), e que nos levava a acreditar piamente que a beleza ideal – quando fossemos grandes - era aquilo. Felizmente, tornámo-nos um pouco mais conscientes das mensagens subliminares que passamos aos nossos miúdos através dos brinquedos que lhes damos, brinquedos esses que podem realmente condicionar a sua percepção e expectativas em relação ao corpo. Os criadores da mítica Barbie também perceberam esta mudança de paradigma e alteraram o seu rumo, assumindo a liderança no que toca à mensagem da importância da diversidade. E este é só mais um bom exemplo do que têm feito.

No início deste ano, a Barbie foi capa da revista Time graças aos três novos modelos lançados pela Mattel: curvy, petite e tall. Nessa apresentação, deixaram claro que estava na altura de se “refletir melhor o mundo que as meninas veem à sua volta”. Escusado será dizer que foram amplamente aplaudidos e que a celebração do 50º aniversário da boneca foi ultra mediática. Poucas semanas depois, foi a vez da Barbie futebolista chegar ao público, inspirada na multi-medalhada Abby Wambach, logo seguida por uma Barbie morena, com hijab, entre outras. Agora, chega a Barbie de Ashley Graham, a grande vedeta mundial da chamada ‘moda plus size’, a mulher que deu a cara – e o corpo - em prol de uma maior aceitação dos corpos volumosos e curvilíneos dentro e fora das passarelas. Corpos com coxas que roçam uma na outra, algo que passou a ser indesejado e considerado pouco sexy nos últimos anos (e sim, a pressão sobre o corpo feminino vai a este nível de detalhe...).

A beleza não é um regra de três simples

“Precisamos de trabalhar em conjunto para redefinir a imagem global de beleza e continuar a incentivar um mundo mais inclusivo. É uma honra ser imortalizada em plástico”. Palavras de Graham, que ainda esta semana foi também agraciada nos prémios Glamour Women of The Year, lado a lado com mulheres como a ginasta Simone Biles ou a ativista dos direitos humanos, Nadia Murad, que sobreviveu ao horror do ISIS. Prémios dedicados às mulheres que se destacam pela sua bravura e que conseguem ter um impacto positivo no mundo com as mensagens que passam. No caso de Ashley Graham – a mesma mulher que ao desfilar de lingerie suscitou comentários como “que vaca gorda” ou “ isto não é sexy, é nojento” –, a mensagem é coesa, constante e clara: a beleza não é uma regra de três simples.

Seguida por quase três milhões de pessoas nas redes sociais, Graham facilmente percebeu que era esse o valioso veículo que a ajudaria a passar a sua mensagem às massas. E depois de conquistadas as massas, o resto acabaria por começar a mexer. Não se enganou: aos 27 anos, e com um orgulhoso tamanho 42, tornou-se na primeira modelo plus size a figurar a icónica edição de biquínis da Sports Illustrated, lado a lado com Irina Shayk e Sara Sampaio. Pelo caminho, lançou uma linha de lingerie para corpos volumosos, que conseguiu levar às passarelas da Semana da Moda de Nova Iorque (onde corpos do seu tamanho habitualmente não entram, convém relembrar). Foi rosto de campanhas para marcas como Levi’s, Calvin Klein e Marina Rinaldi, além de ter sido fotografada para revistas como a Elle UK, a Vogue ou a Harper’s Bazaar. Ativista ferrenha na luta contra o ‘body shaming’ (espreitem a sua interessante participação nas TED Talks, intitulada “Plus Size? More Like my Size!”), tornou-se num símbolo de aceitação para mulheres de todo o mundo. Como é que o consegue? Tendo como eterno lema a seguinte frase: “A autoconfiança é algo muito sexy”.

Esta semana, depois de receber o seu mais recente prémio, fez questão de manter o discurso disruptivo que lhe valeu a simpatia e empatia de tanta gente mundo fora: “Este prémio não é para mim. Isto é também para aquela menina que só este ano se atreveu a vestir um biquíni. É para a mulher que foi mãe e que está a tentar aceitar as deformações que ficaram no seu estômago. Para a rapariga que disse ‘não, eu não vou tentar perder peso só porque o meu namorado quer’, e a todas as mulheres que conseguem olhar para o espelho e dizer ‘Eu amo-te’.

Tal como já escrevi por aqui há uns tempos, elogiar corpos volumosos e curvilíneos não é fazer um elogio à obesidade (também está na altura de começar a perceber a diferença entre excesso de peso e obesidade), nem muitos menos um apelo a uma saúde desleixada. Tal como elogiar uma mulher de corpo delgado não é apelar à anorexia. Que não se confundam nem se deturpem as mensagens. O que está em causa é um elogio à diversidade e à aceitação da forma corporal, seja ela qual for. Porque não há nada mais ambíguo do que isto da beleza.