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Expresso

A falta de um wc pode ser uma sentença?

Exposição My Toilet

foto GMB Akash / Panos Pictures /Water Sanitation for The Urban Poor

Há uns anos, na Índia, fui almoçar no casinhoto de um pescador que vivia junto aos canais de Alleppey. Ter o prazer de conhecer aquela família e de poder perceber um pouco do seu modo foi um privilégio que nunca esquecerei. Mas pelo meio houve um contratempo: tive de ir à casa de banho. Lembro-me de ele me ter indicado as traseiras da casa e de eu ter voltado a trás quando não encontrei um wc exterior. Apontando para uns arbustos, ele voltou a mandar-me para as traseiras da casa. Só então percebi que não havia sequer uma estrutura de madeira com um buraco no chão: a latrina daquela família era simplesmente inexistente. Sem me alongar em pormenores – totalmente desnecessários – posso dizer que me desenrasquei. Mas pelo meio dei por mim a pensar: aqui estou eu sozinha, no meio de nenhures, longe da casa, totalmente exposta e vulnerável. E se aparece alguém? E se me veem ao longe? E se me tentam fazer mal?

Nada me aconteceu naquele dia, a não ser a profunda sensação de desconforto. Mas muitas vezes voltei a pensar na esposa daquele pescador e nas suas filhas pequenas, que todos os dias passam por semelhante situação. Há uns dias vieram-me novamente à memória quando visitei a nova exposição patente na Roca Lisboa Gallery, intitulada “My Toilet: histórias de mulheres e meninas de todo o mundo”. Na semana em que se assinala o Dia Mundial do Saneamento Básico, a pergunta que abre esta coleção de imagens de mulheres de todos os continentes, com as suas respetivas casas de banho, dá que pensar: “Afinal, com que frequência paramos para pensar sobre quão dependentes estamos do acesso a uma casa de banho decente, que nos permita ir à escola, ir para o trabalho, brincar, descansar, e que nos ajude a manter a dignidade e a privacidade?”.

Sabem quantos milhões de pessoas não têm um wc?

Exposição My Toilet

Exposição My Toilet

foto Frederic Courbet / Panos Pictures /Water Sanitation for The Urban Poor

Dados revelados pela fundação We Are Water mostram que, quatro mil anos depois do fabrico das primeiras sanitas, ainda existem 946 milhões de pessoas que diariamente defecam a céu aberto. Como, por exemplo, Saritadevi, uma mulher de Uttar Pradesh, que diz ser humilhada pelos homens e insultada pelas pessoas que lhe atiram pedras, fazem gestos obscenos e cantam música ofensivas quando a veem agachada no meios dos campos perto de sua casa. Ou tal como Rose, uma jovem haitiana, de 28 anos: “Sempre defequei no chão, na rua. Como mulher sei que é vergonhoso e pouco digno, mas não tenho escolha. À noite era muito complicado, especialmente quando chovia. Ou recorria a um arbusto ou fazia o que tinha a fazer dentro de um saco”. Em 2015, uma ONG construiu uma casa de banho em Limonade, zona onde vive Rose, e a sua qualidade de vida melhorou. Mas mesmo assim, quando cai noite o problema mantém-se: “Fica longe de casa e tenho medo de ir sozinha”. Relatos que podem ser lidos nesta exposição e que merecem um pouco da nossa atenção sobre algo que pode parecer básico, mas que ainda é um entrave diário na vida de milhões de pessoas.

Do Haiti ao Quénia, passando pela Roménia, o Brasil ou até mesmo os Estados Unidos e Portugal (não esquecer Portugal!), a falta de acesso ao saneamento básico é um problema comum e recorrente em zonas rurais ou subdesenvolvidas, e muitas vezes resolvido apenas com a ajuda de ONG’s. Mas porquê fazer uma exposição focada em meninas e mulheres se isto afeta toda a população? Porque são elas, invariavelmente, quem mais sofre discriminações decorrentes da falta de casa de banho.

Para além de todas as questões de higiene e saúde inerentes (basta pensar na quantidade de doenças cuja possibilidade de transmissão é gigante sem saneamento básico), dou-vos dois exemplos práticos, reais e muito concretos sobre quão grave pode ser a falta de um wc para o sexo feminino: milhares de meninas continuam a ficar privadas de ir à escola durante a menstruação, o que se traduz numa desvantagem gigante em termos de aprendizagem (e que ainda leva a que muitas sejam precocemente retiradas da escola pelas famílias para fazer trabalho doméstico); tal como um sem fim de mulheres e adolescentes continuam a ser roubadas, agredidas e atacadas sexualmente quando recorrem a zonas ermas para fazer as suas necessidades. E sim, muitas delas são mesmo mortas em ataques do género. Se pensarmos nisto, realmente a falta de um wc pode ser uma verdadeira sentença cruel.

Por mais que muitos de nós não pensemos sequer nisto, ter uma casa de banho é mesmo sinónimo de mais oportunidades em termos de coisas tão básicos quanto educação, trabalho, dignidade e segurança. Esta exposição, cheia de relatos na primeira pessoas, ajuda-nos certamente a perceber melhor porquê.