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Expresso

A carta de um pai americano à filha adolescente

Prometo que depois disto não volto a falar sobre as eleições americanas tão cedo. Mas a mensagem que partilho aqui hoje convosco parece-me fazer sentido, depois de tantas vezes ter lido, em sites de todo o mundo, a mesma pergunta: “Como é que vamos explicar isto aos nossos filhos?”. Aaron Sorkin, autor de Os Homens do Presidente, fez-nos esse favor. Numa carta escrita pelo próprio e partilhada em exclusivo pela Vanity Fair, o homem que, através da sua série, tantas vezes nos fez crer que o Presidente dos Estados Unidos até podia ser uma figura exemplar, explica à sua filha adolescente e à sua mulher como é que é que se pode – e deve - seguir em frente, e com convicção, depois deste resultado eleitoral.

Selecionei em baixo dez frases da longa e emotiva carta escrita por Sorkin, que podem ler na íntegra aqui. Como o próprio diria: “A América não deixou de ser a América”. Aliás, eu diria mesmo que este foi apenas um reflexo daquilo que aquela país é. Para o bem e para o mal. Quer gostemos, quer não. Bom fim de semana!

- “Bom, o mundo mudou na noite passada e eu não consegui proteger-nos. Para um pai, esta é uma sensação horrível. E eu não vou tentar dourar a pílula – isto é verdadeiramente mau.”

- “Está longe de ser a primeira vez em que o meu candidato não ganha (na verdade, esta é a sexta), mas é a primeira vez que ganha um porco verdadeiramente incompetente, com ideias perigosas, sérios distúrbios mentais e sem qualquer conhecimento do mundo ou vontade de aprender.”

- “Não foi só Donald Trump que ganhou – foram também os seus apoiantes. Ganhou o Klan. Os nacionalistas. Os sexistas, os racistas, os imbecis. Os jovens homens brancos que acham que o rap e o Cinco de Mayo são uma ameaça ao seu estilo de vida. Homens que não têm direito de chamar a si próprios homens, que acham que as mulheres que aspiram a mais do que parecer giras são histéricas, feias e em tudo mais merecedoras do nosso desprezo do que da nossa admiração.”

- “A estupidez abjecta foi envolta em glamour, como se se tratasse simplesmente de um discurso refrescante de alguém de que está à margem, que vai agitar as coisas (o sistema). Alguém se importou de ao menos tentar perceber como é ele vai fazer isso?”.

- “Embaraçámo-nos a nós mesmos em frente dos nossos filhos e do mundo (...).”

- “Então o que fazemos agora? Primeiro que tudo, lembramo-nos que não estamos sozinhos. Milhões de pessoas na América e biliões em todo o mundo sentem exatamente o mesmo que nós estamos a sentir.”

- “Segundo, saímos da cama. Os Trumpters querem ver pessoas como nós (judeus, ‘elites costeiras’, educados, socialmente progressistas, Hollywood) a chorar, a lamentar-se, a falar sobre mudar para o Canadá. Eu não lhes vou dar isso.”

- “Que se foda, vamos à luta (Roxy [a filha de 15 anos], há alturas em que é preciso usar este tipo de linguagem e agora é uma dessas alturas) Nós temos poder, nós temos voz. Não temos maiorias na Câmara dos Representantes ou no Senado, mas temos representantes.”

- “Vamos envolver-nos. Vamos fazer o que for necessário para combater a injustiça. A nossa família está suficientemente protegida dos efeitos de uma presidência Trump, mas vamos lutar pelas famílias que não estão. Vamos lutar pelo direito que a mulher tem de escolher. Vamos lutar pela Primeira Emenda e vamos lutar sobretudo pela igualdade – não por uma garantia de resultados iguais, mas por uma garantia de oportunidades iguais. Vamos erguer-nos.”

- “A América não deixou de ser a América e nós não deixámos de ser americanos, e há uma característica nos americanos: aos nossos dias mais negros, seguiram-se sempre – sempre – os nossos melhores momentos”.