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Expresso

Eis a mensagem que Emma Watson espalhou no metro de Nova Iorque

Sim, Trump foi democraticamente eleito Presidente dos Estados Unidos. E sim, com a ajuda de quase metade das mulheres que foram às urnas: apenas 54% das eleitoras norte-americanas votaram em Hillary Clinton. Mulheres que, na visão do homem que elegeram para seu próximo líder, são seres que se devem “agarrar pela c...” e fazer-lhes o que se quiser sexualmente quando se tem poder para isso. O facto de ao longos dos últimos anos esta pessoa ter insultado tantas mulheres publicamente, e sem qualquer pudor, com palavras como “bimbas”, “animais nojentos”, “patetas” e “porcas gordas”, que perdem o controlo quando estão menstruadas, por exemplo, e das quais se ter deve ter nojo por irem à casa de banho (esta farpa foi especialmente dedicada a Clinton que – horror dos horrores – vai ao wc) não teve qualquer peso na hora da verdade. Sim, as mulheres apoiaram-no à mesma. Sim, as mulheres continuam a achar que tais comportamentos, como o próprio diria, são normais nos machos alfa. Sim, eu sinto vergonha que ainda assim seja, mas faz parte do caminho.

Por mais misógino e xenófobo que seja, há que tirar o chapéu a Trump num aspecto: ele sempre deixou claro quem era, o que pretendia e qual a sua visão. Tirando o seu primeiro discurso após os resultados eleitorais, ele foi sempre coerente na sua mensagem agressiva e desrespeitosa. Mas se muitos de nós olhámos com horror para tal espécime nos últimos meses, praticamente metade das mulheres norte-americanas confiou-lhes a sua sorte e a do rumo do seu país. Principalmente as mulheres brancas: 53% votaram em Trump, enquanto que no que toca a mulheres negras, por exemplo, apenas 7% lhe dedicou o seu voto. Uma discrepância que revela em muito a diferença de percepção da importância do acesso aos direitos mais básicos, que, caso as promessas de Trump se cumpram, poderão ser um problema grave dentro do tal regresso do sonho americano que ele tanto apregoa.

Aparentemente é fraca, demasiado fraca, a memória coletiva das mulheres de um país onde teve de haver sangue derramado para que o direito feminino ao voto fosse uma realidade, e que há poucas décadas ainda andava a discutir os direitos civis dos negros. Onde uma em cada seis mulheres é vítima de abuso sexual todos os anos, onde os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres ainda geram controvérsia, onde a discrepância salarial entre homens e mulheres ronda os 20%. Isto do sonho americano tem muito que lhe diga e, se durante muitas décadas as mulheres foram educadas para não questionar, de vez em quando é preciso relembrar aquelas que questionaram este e outro tipo de discriminações.

Refrescar a memória com Emma Watson

Foi a pensar nisso que Emma Watson, Embaixadora da Boa Vontade da ONU, decidiu ontem espalhar pelo metro de Nova Iorque uma série de livros da fabulosa Maya Angelou, tal como já tinha feito no metro de Londres na semana passada. O objetivo: fazer com as pessoas voltem a passar os olhos por um dos principais volumes da autobiografia daquela ativista, que conta impressionante história de vida de uma mulher negra, nascida no sul segregado do Estados Unidos, criada numa família desmembrada, vítima de abusos sexuais ainda criança. Prostituta, poeta, ativista, atriz, cantora, escritora: na sua vida, Maya Angelou foi várias mulheres numa só. Lutou pelos direitos civis ao lado de Martin Luther King e de Malcolm X, por exemplo, e foi uma fonte de inspiração para milhões de outras mulheres norte-americanas. Em 2011, recebeu de Barack Obama a maior distinção civil norte-americana, a Presidential Medal of Freedom.

Emma Watson, que fez uma pausa assumida na sua carreira de atriz para se dedicar em exclusivo à luta pela igualdade de género, achou que partilhar Maya Angelou após uma escolha como a de ontem, fazia sentido. Seja de forma simbólica, seja de forma pedagógica. Com a esperança de que quem ler as palavras de Angelou talvez ganhe uma maior consciência para o que está em jogo quando se escolhe Trump para Presidente de um país. Um país que se assume como um sinónimo de palavras como liberdade, tolerância e oportunidades.

A escolha de ontem foi democrática, o resultado que daí virá só mais tarde saberemos. Mas a memória, essa deve ser refrescada urgentemente.