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Expresso

Não, Hillary não deve ganhar porque é mulher

Hillary Clinton no último dia de campanha antes das eleições em Filadélfia

FOTO BRIAN SNYDER/REUTERS

Nos últimos meses houve um argumento constante usado a favor de Hillary Clinton que muito me foi irritando: as mulheres devem votar nela porque é mulher. Claro que ver uma figura feminina chegar à liderança Casa Branca seria algo absolutamente fenomenal, inspirador e cheio de simbolismo. Provavelmente, um passo e exemplo gigante no que toca à necessária mudança de mentalidades, num mundo onde admitir uma mulher num cargo de chefia ainda é algo tantas vezes controverso. Mas passar a mensagem de que Clinton deve ser eleita porque é mulher não passa de uma forma de perpetuar pensamentos sexistas. Que simplesmente não deviam fazer sentido. Já para não falar do descrédito que se dá com tal conselho à inteligência e capacidade de decisão das eleitoras.

Nunca a palavra feminismo esteve tão em voga, mas também há muito tempo que não havia uma deturpação tão grande – feita também por mulheres - sobre o seu real significado. Este é apenas um exemplo, dos maus. Já vai sendo altura de entendermos isto: o verdadeiro feminismo não defende a supremacia feminina perante a masculina, defende sim a igualdade entre géneros. Não me parece que querer eleger alguém com base naquilo que tem entre as pernas seja um bom caminho, nem muito menos uma boa mensagem igualitária a passar. Se queremos ver Hillary Clinton à frente dos Estados Unidos, que seja pelas suas qualidades e capacidades enquanto líder de um país. E quando comparada a Donald Trump, ela nitidamente leva uma larga vantagem.

No que diz respeito a política, Trump não passa de um caloiro. E se uma visão fresca, menos viciada nos habituais esquemas e regras do jogo da Casa Branca, até poderia ser, ingenuamente, visto como algo positivo, basta pensar no seu perigoso radicalismo - tantas vezes com motivações racistas, xenófobas e sexistas – para perceber que este não é o caso. Com um passado que não prima propriamente pela transparência, desde a forma como alcançou a sua fortuna, às suas brutais dívidas ao fisco, Donald Trump é o típico ‘chico-esperto’. Daqueles que chegam longe à custa da miséria alheia, mas que prometem trazer de volta o sonho americano às massas, mesmo que isso signifique aniquilar quem lhes passa pelo caminho, construir muros para proteger o país da imigração ou criar alianças com facínoras como Vladimir Putin. E se de início até se podia achar piada ao facto anedótico de tal personagem querer ser Presidente de um país como os Estados Unidos, hoje devemos, sim, ficar deveras preocupados com a quantidade de eleitores desse mesmo país que se revê na sua ‘chica-espertice’.

Não, Hillary Clinton não é uma santa

Talvez Hillary também não seja a melhor das candidatas, é certo, mas tem do seu lado um trunfo maior: a experiência. A sua carreira foi trilhada a pulso e a política fez sempre parte de um plano assumido e alcançado, bem antes de sequer ser primeira-dama. Mesmo durante a campanha de Bill Clinton, havia um slogan que o deixava claro: “dois presidentes pelo preço de um”. Ao chegar à Casa Branca, salvo erro, foi a primeira mulher de um Presidente a ter um escritório e poder de decisão para mexer em reformas necessárias no seu país. Entre outros exemplos, lutou pelas alterações no sistema de saúde e fez braço de ferro em prol dos direitos das mulheres e do sistema de bem-estar social. A facilitação do acesso à saúde não foi um êxito (ainda hoje o EUA lidam com esse problema), mas questões como a prevenção da violência doméstica e a aceleração de programas de apoio às vítimas vingaram. Um de muitos exemplos da sua capacidade de meter a mão na massa.

Alguns maus exemplos: sim, o apoio à intervenção americana no Iraque foi um erro que lhe é apontado até hoje (com razão) e que a própria assume como tal. Sim, a questão dos emails também nos deixa desconfortáveis (mesmo que o FBI garanta que não havia nada de ilegal), e sim, a forma como defendeu o marido no caso Lewinsky não foi bonita e muito menos correta, principalmente quando pensamos que é uma das vozes ativas pelo fim de discriminação de género no seu país. Hillary Clinton não é uma santa, nem um poço de virtudes. Mas quando comparada com tantos dos Presidentes que já passaram pelo cargo – de Nixon a Bush, venha o diabo e escolha - , podemos dizer que até estamos perante uma pessoa que cumpre bem mais do que os mínimos da honestidade inerente à Presidência.

“Depois de um preto só faltava agora elegerem uma mulher”

Ao contrário de Trump, lá está, Clinton tem a experiência. Já foi Secretária de Estado, já tomou decisões muito erradas, mas também outras muito boas. Já foi aplaudida, mas também já teve de pedir desculpas publicamente e assumir erros. Conhece o mundo da política internacional – indiscutivelmente melhor que Trump – e em Washington sabe bem o que a Casa gasta. A tudo isto se alia uma qualidade ninguém lhe pode negar e que até Trump enalteceu num dos debates: “ela nunca desiste”. E esta resiliência, se for bem usada, é uma caraterística imprescindível num bom líder.

Nenhum dos dois candidatos atuais são brilhantes, é verdade. Mas há uma grande diferença entre não se ser brilhante e ser-se verdadeiramente medíocre. Quem for às urnas, não vai estar a escolher entre qual “do mal o menos”, como tantas vezes tenho ouvido por aí. Vai escolher entre um pequeno ditador e uma pessoa que, com todos os seus erros graves, patranhas duvidosas e defeitos inequívocos, ainda consegue ser uma das candidatas mais honestas que esta Casa já teve numa corrida presidencial. Uma candidata inteligente, tenaz e com o respeito ao próximo, quer gostemos de admitir, quer não.

Como eu ouvi há uns dias num autocarro, “depois de um preto só faltava agora elegerem uma mulher”. Para muita gente o maior ‘defeito’ de Hillary Clinton ainda continua a ser esse: é uma “gaja”. Contudo, não sejamos igualmente ridículos ao usar esse mesmo argumento ao contrário, enquanto motivo para ser ela a vencer mais logo. Se Hillary vencer – e por todos nós, espero bem que sim – é porque, sem dúvida, é ela a melhor candidata nesta corrida presidencial. Mesmo que não se seja fã, estrategicamente é fácil perceber que dar-lhe o voto, num fase em que a luta está inacreditavelmente tão renhida, é essencial. Esperemos que a ida à urnas revele essa lucidez.