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Expresso

Foi a honra que as matou?

Trabalho multimédia 'Honor Killings' da Associated Press

Acusada de manter relações ilícitas, Suraya foi morta à facada pela marido. Acusada de não aceitar um casamento arranjado, Shazia foi morta a tiro pelos três irmãos. O mesmo destino de Saira, que foi morta pelos próprios pais sob a mesma acusação. Acusada de ter sido violada, Manisha foi estrangulada até à morte pelos sogros que não suportaram a vergonha. Estas são apenas quatro nomes das mais de três mil mulheres que entre 2013 e 1015 foram mortas no Paquistão nos chamados crimes de honra. Nomes que agora a agência Associated Press não quer deixar cair no esquecimento.

Não é muito comum ver este tipo de trabalhos vindos de grandes agências noticiosas, cujo enfoque diário está muito ligado à atualidade do mundo. Os crimes de honra já não são novidade e só chegam a ser notícia quando a forma como são praticados os torna demasiado grotescos para que possam passar despercebidos. Mas quando se fazem as contas – como as que a AP fez neste trabalho multimédia intitulado “Honor Killings” – talvez se perceba que estes homicídios fazem realmente parte da atualidade e que merecem a nossa atenção.

Só no Paquistão, todos os dias há três pessoas assassinadas em supostos crimes de honra. E quem as mata? Num impressionante gráfico que conta, através das raízes de uma árvore, a questão patriarcal por trás desta necessidade de matar para salvar a honra da família, fica claro que os assassinos são invariavelmente familiares das vítimas. Quanto às motivações, essas podem ser tão simples quanto uma filha ser vista a conversar com um rapaz ou esta querer ter uma palavra a dizer sobre o homem com quem se vai casar.

Crimes de honra: 1096 mulheres mortas, 88 homens

Nos últimos anos estes crimes este têm aumentado, ou, pelo menos, a denúncia dos mesmos às autoridades subiu. Assim o mostra a Comissão para os Direitos Humanos do Paquistão: no ano passado 1096 mulheres (e 88 homens) foram mortas por familiares que acreditavam que estas tinham desonrado o nome da família. Quase 200 destas vítimas eram menores de idade. Em 2015 tinham sido à volta de 1000 e em 2013 cerca de 870.

Num país que é considerado um dos mais perigosos do mundo para uma mulher viver, em muitos casos a palavra feminina ainda pouco conta no que toca a escolher o seu destino. E a lavagem cerebral para a honra da família enquanto bem maior começa desde cedo. Homens e mulheres são educados para acharem normais estes crimes, como se fossem de alguma forma aceitáveis e justificáveis. Tão aceitável que, por exemplo, um marido farto de uma mulher pode simplesmente levantar uma falta suspeita e matá-la para se ver livre do ‘empecilho’, sem ser questionado. Esse pensamento retrógrado e discriminatório aliou-se a uma lei deficitária e incompreensível, que permitiu durante décadas que o perdão familiar dado ao criminoso em casos destes fosse o suficiente para que justiça não acontecesse. Invariavelmente, ninguém era condenado.

No último ano o tema foi-se tornando cada vez mais mediático, principalmente depois de Sharmeen Obaid Chinoy ter recebido o Óscar pelo filme “A Girl in The River – The Price of Fogiveness”. Baseado numa história verídica, a realizadora paquistanesa deu voz a uma sobrevivente cujo relato de horror chocou o mundo. Muitas vozes se voltaram então a erguer pela alteração da lei e muitas ações de sensibilização pública foram postas marcha. Este mês, finalmente, foi aprovado um projeto de lei que prevê 25 anos de cadeia para crimes do género.

Em memória de todas aquelas que não viram justiça ser feita, este trabalho da AP acaba de uma forma particularmente tocante: com um mini obituário de centenas de vítimas do último ano, que imortaliza os nomes de quem perdeu a vida em prol da suposta honra da família. Espreitem-no aqui, vale muito, muito a pena.