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Expresso

Mulheres e meninas violadas por quem as prometeu proteger

Pelo menos 43 mulheres e raparigas que sobreviveram à violência do Boko Haram foram alvo de abusos sexuais por parte responsáveis de campos de deslocados, membros de grupos de vigilantes, polícias e militares. Muitas foram drogadas e violadas, outras foram coagidas a ter relações sexuais com falsas promessas de casamento ou de ajuda material e financeira. Os números e os relatos chocantes foram divulgados num relatório da Human Rights Watch e não nos podem deixar indiferentes.

Que tipo de esperança no futuro poderão ter estas meninas e mulheres se aqueles que supostamente as deveriam proteger são também, agora, aqueles que as atacam? Que abusam delas com a mesma frieza com que os terroristas do Boko Haram o fizeram, que as continuam a ver como um pedaço de carne do qual podem desfrutar a seu bel prazer. Que tomam a sua fragilidade como um trunfo e a usam por diversão, jogo de poder e sadismo.

Ainda há uns meses partilhei convosco um trabalho incrível que fez capa da Time, cuja mensagem do artigo era clara: “As violações na guerra são tão antigas quanto a própria guerra. Mas a natureza íntima desta agressão sexual significa que os horrores vão frequentemente ficando indocumentados, higienizados dos livros de história e encobertos por notícias que se concentram apenas em mortes e números de refugiados. Ainda que a violação em massa seja comum em tempos de guerra, isto só a torna mais corrosiva. Ela espalha doença. Estigmatiza e destrói famílias e deita abaixo sociedades. Deixa filhos indesejados que servem como lembretes constantes do pior dia da vida daquela mãe. ‘A violação é uma arma ainda mais poderosa do que uma bomba ou uma bala’, diz Jeanna Mukuninwa, uma mulher de 28 anos, oriunda de Shabunda, na República Democrática do Congo. ‘Pelo menos com uma bala, a pessoa morre. Mas, se tiver sido violada, essa pessoa é vista pela comunidade como alguém que está amaldiçoada. Após uma violação, ninguém vai falar com ela; ninguém vai querer vê-la. É uma morte em vida’.”

É o fim da esperança na humanidade?

Repito aquilo que por aqui disse na altura: as violações em massa de meninas e mulheres, o abuso de poder e a exploração sexual em contexto de guerra não é novidade na história mundial. Aliás, é um cliché, daqueles que todos sabem, mas sobre o qual ninguém quer falar. Basta olharmos para os últimos 100 anos e perdemos conta às situações em que as mulheres foram alvo de crimes sexuais indiscritíveis. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os soldados japoneses raptavam mulheres e meninas sul-coreanas e punham-nas em bordéis para que os soldados pudessem “aliviar a tensão”. Violadas dezenas de vezes por dia, eram as chamadas mulheres de conforto e só em 2015 viram justiça ser feita. Na mesma época, os russos fizeram o mesmo às alemãs, por exemplo, e os alemães fizeram-no às russas, às polacas e por aí fora. Os soldados norte-americanos fizeram o mesmo a milhares de meninas e mulheres vietnamitas durante a Guerra no Vietname. E durante a Guerra na Bósnia, os soldados Sérvios tinham verdadeiros campos de violações. O Boko Haram fez o mesmo na Nigéria, e no Congo estima-se que mais de 200 mil mulheres e crianças tenham sido violadas em contexto de guerra.

Não há nada que desculpe ou torne menor tal selvajaria, quer os alvos sejam mulheres ou homens (que também o são, mas com muito menos expressão). E a guerra, essa não pode ser desculpa. Mas quando pensamos que aqueles que deveriam proteger as vítimas de tal situação, também podem ser os mesmos que as voltam a fazer passar por tal abuso, estas violações parecem ganhar um cariz ainda mais aterrador e grotesco. É o fim da esperança na humanidade. Continuamos a não conseguir proteger os mais fracos e frágeis, a assobiar para o lado quando o problema não nos toca diretamente a nós. A menosprezar a necessidade de ações concertadas, internacionais, quando as alianças e benefícios económicos que daí advêm não são assim tão vantajosos. A pôr à frente outros interesses que não a dignidade e a sobrevivência daqueles que fogem ao terror da guerra e do terrorismo. Inocentes, sem escapatória.

Europa: há mulheres e crianças a serem abusadas sexualmente em troca de 5 euros

Na passada primavera chegava-nos mais uma notícia sobre abusos sexuais perpetuados por capacetes azuis. Só em 2015, a ONU recebeu 69 acusações de violações alegadamente cometidas por pessoas de 21 nacionalidades e, em muitos casos, contra menores, no Congo e na República Centro Africana. Podíamos achar que esta falta de proteção aos mais frágeis só acontece em regiões como África, aquele continente culturalmente tão diferente, onde em tantos países os direitos humanos – mesmo fora do ambiente de guerra – conseguem ser uma miragem. Mas de vez em quando é preciso olhar para dentro da nossa própria quintinha e perceber que isto também pode ser uma realidade vivida entre nós.

Há umas semanas participei numa conferência internacional organizada pela Associação Mulheres Sem Fronteiras, que trouxe a Lisboa pessoas incríveis que trabalham no terreno com grupos mais vulneráveis de refugiados e migrantes, como mulheres, crianças e menores não acompanhados. E ainda hoje as palavras de Lora Papa, fundadora da METAdrasi, me ecoam na cabeça: nos campos de refugiados na Europa “há crianças e mulheres abusadas sexualmente pelo preço de 5 euros”. Em boa parte por culpa da falta de segurança dentro destes campos, que embora tenham segurança 24 horas por dia da parte de fora para não deixarem os refugiados circularem pela Europa, lá dentro esta consegue ser inexistente, principalmente à noite. Escusado será dizer que a esta falta de proteção das populações mais frágeis e desesperadas se junta o drama das redes de tráfico humano dentro de campos, cujos principais alvos são mulheres, raparigas e crianças.

É assim que nós, Europa, o velho continente do mundo ocidental, organizado, legislado com especial atenção aos direitos humanos, deixamos que a vida dos que fogem do horror seja um perpetuar do mesmo. Esquecendo-nos tantas vezes que, independentemente do seu país de origem, são pessoas. Será que a nossa falta de ação concertada, célere e realmente eficaz na sua recepção, não nos continua também a tornar cúmplices da exploração dos mais fracos que fogem da guerra?