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A Arna é demasiado gorda para ser bonita

Na foto que abre este artigo, apresento-vos Arna Ýr Jónsdóttir: 20 anos, islandesa, ex-ginasta, atual modelo e detentora do título Miss Islândia. Rumou recentemente a Los Angeles para participar no Miss Grand International, concurso de beleza que se transformou num dos maiores do género em termos globais. A poucas semanas da decisão do júri, a equipa de produção manda-lhe um recado direto do criador do concurso: era gorda demais e devia fazer dieta profunda se queria ter alguma chance de chegar ao pódio. Os seus ombros – de ginasta profissional – eram demasiado largos e as sua coxas demasiado musculadas. O “conselho de amigo” caso quisesse agradar ao dono do evento? Que deixasse de tomar pequeno-almoço e que nas restantes refeições comesse folhas de alface. Ironicamente, ainda lhe disseram para “comer ar”.

Isto até podia ser uma parte de um guião cómico de filme série B, mas é real. Este foi o aviso que fizeram a uma miúda de 20 anos, tal como o fizeram a várias outras que certamente estão agora a comer maçãs e saladas desenfradamente na esperança de emagrecerem mais 100g. Para agradarem a um júri que continua a associar a beleza à magreza extrema, como se uma dependesse da outra. A saúde, essa continua a passar para segundo plano. Como diria a própria modelo islandesa: “Abram o olhos, estamos em 2016. Se querem organizar um concurso internacional de beleza, têm de abraçar e olhar para a beleza em termos internacionais.”

Consciente das consequências que tal método poderia ter na sua saúde, a modelo islandesa decidiu não só não seguir o aviso que lhe foi dado, como desisitiu do concurso. E fê-lo assumidamente como uma forma simbólica de luta contra ideiais de beleza ultrapassados, mas que continuam a pôr em risco a saúde de milhares de miúdas e jovens mulheres da sua idade mundo fora. Despediu-se com uma carta escrita à mão e partilhou os seus motivos com os fãs através da sua conta de Instagram.

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Mas não foram apenas os fãs que reagiram, foi também a imprensa internacional que a partir daquele dia não mais a largou, nem a ela, nem aos organizadores do evento. Num vídeo que partilhou depois no Instagram, intitulado “O meu ponto de vista”, Arna decidiu explicar a mensagem por trás das sua atitude aos que insistiam em espalhar a ideia de que a modelo não sabia era aceitar críticas. “Entendam, eu não estou triste por me dizerem que sou gorda. Achei é que tinha o dever de agarrar este momento, esta oportunidade, para defender aquilo em que acredito. Por mim mesma, por todas as miúdas e mulheres do mundo que ouvem este tipo de coisas constantemente. Acima de tudo, dizer-lhes: não há nada de mal em serem quem são e como são. Não têm de seguir o que os outros querem que vocês sejam”. E com uma boa dose de ironia, colocou também uma foto sua a dizer que tinha decidido ficar ainda uns dias por Los Angeles para aproveitar e comer boa comida.

Numa altura em que o universo da moda tenta passar a ideia da celebração da figura feminina no seu todo, com maior consciência ao nível da aceitação corporal e da importância da diversidade, este incidente relembra-nos quão inexistente essa mesma consciência continua a ser em universos como este, o dos concursos de beleza. E atenção, não os confundam com desfiles de moda, que mal ou bem têm um outro propósito. Os concursos de beleza não fazem mais do que expôr as mulheres e os seus corpos, tal qual peças de carne na fileira do supermercado, perante olhares gulosos que ditam se estas têm ou não as caraterísticas (como os pedacinhos de gordura nas suas carnes desnudas) ideiais para serem consideradas belas, e dignas de uma coroa. Como é que continuamos a achar que eventos deste género fazem sequer sentido? Como é que ainda lhes damos tanto mediatismo? Pior, como é que em países como os Estados Unidos, por exemplo, se continuam a organizar eventos do género dedicados a meninas de tenra idade? Talvez faça sentido começarmos a parar um bocadinho, desligarmos a televisão e os tablets e pensar nas mensagens aqui implícitas, em vez de simplesmente as absorvermos e aplaudirmos o circo em torno da menina de biquini com uma coroa na cabeça.

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