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Expresso

Faz sentido continuar a discutir a igualdade de género?

Peter Talos muda a fralda ao filho durante a baixa parental, na Noruega. Nos países nórdicos existe igualdade de género

FOTO HEIKO JUNGE/NTB SCANPIX / REUTERS

Faz! E as últimas duas semanas têm sido pródigas no que toca a movimentos e relatórios que nos mostram porque é que este tema não pode sair da agenda. Desde a greve das mulheres polacas contra a alteração da lei do aborto, à marcha gigantesca feita pelas argentinas dedicada à luta contra a violência sobre as mulheres ou os dados globais sobre a igualdade em termos económicos, são tantos os momentos diferentes e tantos os novos números oficiais que nos podemos até confundir nas especificidades de cada um. Contudo, a conclusão vai ser sempre ter ao mesmo: temos um longo caminho a percorrer e é urgente começar a acelerar o passo.

Ainda ontem o Fórum Económico Mundial revelava os resultados do seu último grande relatório intitulado Global Gender Gap. Basicamente, as mulheres vão ainda demorar 170 anos até conseguirem atingir a igualdade económica, o que representa um retrocesso em relação à previsão feita no ano passado, que apontava para 118 anos até este fosso ser fechado. Claro que estas são contas globais, feitas em análise à realidade de 144 países distintos, e que há nações onde tudo isto poderá acontecer mais rápido (os países nórdicos são uma belo exemplo) e outras onde deverá ser uma verdadeira odisseia até que seja possível. Mas a previsão é também clara: só em 2186 é que a paridade poderá ser uma realidade em termos mundiais. Ou seja, nem sequer os meus potenciais netos viverão tal realidade.

Por agora, o acesso à educação continua a ganhar terreno mundialmente, sendo um dos indicadores mais positivos para equilibrar a balança. Por outro lado, embora a percentagem de mulheres com acesso ao ensino superior tenha galgado terrenos nas últimas décadas, no que toca a acesso a altos quadros profissionais ou ao empoderamento político, a discrepância entre homens e mulheres continua a ser profundamente acentuada. Tal como no que toca ao trabalho não remunerado, que tanta gente tende a desvalorizar como um fator que tem uma influência direta na qualidade de vida de qualquer pessoa. Neste caso, são as mulheres que permanecem mais afetadas por essa situação.

Mulheres e homens têm as mesma oportunidades?

É também uma verdade que há mais mulheres a trabalhar em part-time, tal como um número maior de mulheres em profissões com remunerações mais baixas. Tudo isto influencia dados como a discrepância entre a média de salários atribuídos a homens e mulheres em termos globais. E embora esses sejam argumentos válidos para explicar a diferença, também me parece importante focar a questão do acesso a oportunidades. Oportunidades essas que podem ser uma lacuna geral em países de sistemas patriarcal acentuado, mas também um entrave real e premente quando pensamos em sociedades desenvolvidas, mas que ainda têm latente discriminação de género no que diz respeito aos altos quadros das empresas do sector privado, por exemplo, ou a cargos políticos.

Tendo em conta fatores como educação, saúde e sobrevivência, oportunidades económicas e participação política, Portugal ficou com o 31º lugar deste ranking mundial sobre a igualdade do género. E no mesmo dia em que este dado foi revelado, por cá foi lançada precisamente uma campanha que tenciona agitar consciências para a importância da conciliação entre vida profissional e familiar, além da partilha das tarefas doméstica entre mulheres e homens.

A realidade é que, embora cada vez mais, tanto homens como mulheres, tenham profissões remuneradas fora de casa, as tarefas domésticas ainda roubam às mulheres portuguesas uma média de mais 1h30 por dia do que aos homens. Sim, os números também mostram que homens também passam mais tempo no trabalho, é certo, mas a média de tempo que passam a mais (revelada pelo estudo “Os Usos do Tempo de Homens e Mulheres em Portugal, que originou o livro com o mesmo nome lançado no mês passado), ronda a meia-hora. Basta fazer as contas.

Talvez pouca gente se debruce nelas ou sequer tenha noção que elas existem. É tão mais fácil dizer que isto da discriminação de género no nosso país é só uma ideia falsa, inventada pelas chatas das mulheres. Possivelmente poucos até olharão para a campanha lançada pela CESIS em parceria com a CITE, não fazendo um esforço sequer para perceber o que está implícito neste pedido de mudança. Mas era bom que o fizessem porque não é apenas a vidas das mulheres que está em jogo, é o melhoramento da qualidade de vida geral de toda uma sociedade. Algo que a paridade pode definitivamente ajudar a alcançar.