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Expresso

Homens violados por gangues deixam cidade em alerta

Em menos de dois meses, foram registados pelas autoridades de Ribeirão Preto, no Brasil, mais de 30 casos de homens violados por um gangue. Contudo, estes são apenas números relacionados com vítimas que fazem queixa na polícia, a realidade pode ser bem maior dado o fator medo e, principalmente, vergonha.

Imagens de câmaras de segurança revelam um gangue composto por três homens, corpulentos e armados. Os ataques acontecem, regra geral, à noite, com a vítima a acabar sempre por ser levada para um sítio ermo. Também no modus operandis deste crime indiscritível, os depoimentos relatam quase sempre o mesmo: a vítima é rodeada pelo gangue e ameaçada com uma arma de fogo. Depois de afastada de zonas com movimento, dois dos homens seguram-na, enquanto o outro a despe e posteriormente força a penetração anal. Em alguns dos casos, a vítima, mesmo visivelmente ferida, é ainda obrigada a fazer sexo oral aos violadores antes de ser abandonada no local.

Em todos os casos, o crime aconteceu à noite e as vítimas tinham entre os 20 e os 35 anos. Contudo, a polícia tem tido alguma dificuldade em apanhar o gangue uma vez que não há um padrão de localização para as violações. Entretanto, as autoridades alertaram os homens daquela cidade para evitarem andar sozinhos na rua à noite, sugerem-lhes que usem roupas mais difíceis de desapertar e que caso, sejam abordados, não reajam com violência para evitar qualquer crime maior.

Escusado será dizer que – caso fosse verdadeira - esta seria uma notícia gravíssima e que não deveria ser o medo que deveria imperar, mas sim uma ação concertada para apanhar os criminosos. Não seriam os homens que deveriam ter de evitar as suas rotinas, nem muito menos de mudar a forma como se vestem ou aceitarem a violação como um crime menor face à possibilidade de outras formas de violência. O abuso sexual não pode, nem deve, ser desvalorizado. Seja como for, esta notícia é falsa. Mas durante mais de uma semana correu as redes sociais e os sites de conteúdos de entretenimento em jeito de notícias, cumprindo o seu propósito: ajudar a agitar consciências e gerar desconforto a quem raramente tem de pensar neste tipo de perigo.

Sim, os homens também podem ser violados

Muitas vezes tenho dito por aqui que não se deve brincar com o tema abuso sexual, correndo o risco de o ridicularizarmos, desvalorizarmos, banalizarmos e, consequentemente, o tornarmos mais aceitável. Mas esta notícia falsa não foi uma simples brincadeira, foi um género de lembrete para a realidade de cultura de violência sexual que ainda se vive nos dias de hoje e que deve ser combatida com urgência. Criar desconforto em quem lia o relato dos homens violados e confrontá-los com a possibilidade de serem uma das próximas vítimas foi um propósito pertinente.

Inverter a tendência – tendência essa que é apenas uma constatação corroborada por números de organismo oficiais do mundo inteiro - e colocar a figura masculina no papel da vítima, às mãos do habitual perpetuador do crime (do sexo masculino) – mais uma vez, é o que as estatísticas revelam –, pode ajudar muita gente, principalmente os homens, a melhor compreender a crueldade, desconforto, medo e impotência sentida pelas mulheres quando o tema é o assédio e o abuso sexual. Continuarem a colocar-nos em cima o ónus da responsabilidade, ora pela roupa que usamos, ora pelos hábitos sociais, ora pelas adições ou conduta, não é um caminho correto.

Não quero com isto dizer que não existem casos de homens que também são violados. Infelizmente existem, mas têm muito menos expressão do que os casos com vítimas do sexo feminino quando olhamos para o bolo geral. E também não convém esquecer: muito, mas muito raramente estes abusos sexuais feitos a homens são praticados por mulheres. Claro que, no que toca à vítima do sexo masculino, há um fator vergonha associado ainda maior e certamente muitos deles nem sequer chegam às autoridades. Mas mais uma vez é preciso quebrar este pensamento machista que, não só inibe os homens de procurarem ajuda e justiça, como também não o valoriza devidamente enquanto vítima dado o seu género. Uma cultura machista que continua a validar a violência sexual como algo tão primário quanto inevitável, mesmo quando todos sabemos que sexo forçado – dentro ou fora das relações íntimas – é uma grave infração da lei.

Em muitos dos comentários deixados a esta notícia falsa, surgiram frases grosseiras do género “se for gay não se importa” ou “se calhar até gostou”. Mais uma vez, a falsa percepção deste ato inaceitável como algo que até pode ter um cariz erótico. Mas não há nada de erótico ou de prazeroso numa violação. Nem muito menos de aceitável. O abuso sexual não passa de um crime grave, independentemente do género ou da orientação sexual da vítima. Tão simples quanto isto.