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Expresso

O novo super-herói da Marvel é uma mãe da Síria

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Madaya Mom, desenhado por Dalibor Talajic. Parceria ABC News e Marvel Comics

Quando pensamos em super heróis é possível que nos venham à cabeça personagens como o Super-Homem, o Homem-Aranha, o Capitão América, o Batman, o Hulk ou até mesmo o Quarteto Fantástico. Muitos deste nomes foram criados pela Marvel, que anda a encantar o mundo com personagens fantásticas desde os anos 40. Da fantasia para a realidade, a editora acaba de revelar ao mundo a sua nova heroína: uma mãe síria. Tão improvável quanto surpreendente.

Madaya Mom, desenhado por Dalibor Talajic. Parceria ABC News e Marvel Comics

Madaya Mom, desenhado por Dalibor Talajic. Parceria ABC News e Marvel Comics

Madaya, 2016. As Nações Unidas e os Médicos Sem Fronteiras já alertaram para o facto de a fome estar a ser usada como arma de guerra pelo Hezbollah e pelo exército de Assad, que mantém sob cerco as cerca de 40 mil pessoas desta pequena cidade. Desde junho de 2015 que ninguém sai de lá e que praticamente ninguém entra. Os que sobrevivem aos bombardeamentos, desesperam por ajuda humanitária que tarda em conseguir furar o cerco. Além do terror da guerra, a fome é mesmo uma tragédia sem precedentes para quem não conseguiu escapar a esta verdadeira prisão.

Nessa cidade, localizada a poucos quilómetros da fronteira com o Líbano, existe uma verdadeira mãe-coragem, que vive com o marido e os cinco filhos, um deles nascido já durante a guerra. Uma mãe que acedeu a contar a história da sua viva e relatar o seu dia-a-dia à ABC News por telefone e sms. Depois de um blogue no site do canal, nasceu agora uma BD digital criada em parceria com a Marvel: A Mãe de Madaya.

Uma história da vida real, contada na primeira pessoa

Desenhada pelo artista croata Dalibor Talajic, a história começa em janeiro de 2016, meio ano depois do início do cerco a Madaya. Para quem consegue sobreviver à violência armada, a fome torna-se o seu pior inimigo. Na tentativa vã de a enganar, esta mãe (cuja identidade não é revelada por razões de segurança) apanha as poucas folhas que sobrevivem no seu jardim e ferve-as com açúcar. Muitas vezes, é esta a sua refeição diária. Os alimentos sólidos, esses poupa-os para dar aos filhos. Antes do conflito, eram uma família simples e feliz. Tinham um pomar e uma horta de onde retiravam fruta e legumes frescos diariamente para as suas refeições. Solo fértil que também morreu com a guerra. Hoje, vivem de comida desidratada entregue pela parca ajuda humanitária que ali chega. E cada vez que um dos seus próprios filhos lhe diz, entre lágrimas, a frase “tenho tanta fome”, esta mãe de Madaya morre um pouco por dentro. Mas não desiste.

A cidade está há seis meses sem eletricidade e o preço do combustível está dez vezes mais caro do que era antes do cerco. Chegou a neve e não há aquecimento. A família dorme toda junta na mesma cama para se conseguir aquecer. Os seus filhos adoecem com a ansiedade, o frio e a fome. Mas quando tentam pedir ajuda nos escombros do que sobra do hospital daquela zona, o cenário que encontram é de morte. Pessoas que desmaiam de fome ou de doenças que seriam facilmente tratadas com medicação básica – que hoje não se encontra porque também já não há farmácias -, crianças já só com pele e osso, a entrar em malnutrição severa. Não se sabe quando mais tempo sobreviverão. Numa das pranchas, fica o desabafo desta Mãe de Madaya: “Costumava ter medo que os meus filhos morressem, mas neste momento começo a achar que a morte é mais misericordiosa do que a situação pela qual eles estão a passar.”

Madaya Mom, desenhado por Dalibor Talajic. Parceria ABC News e Marvel Comics

Madaya Mom, desenhado por Dalibor Talajic. Parceria ABC News e Marvel Comics

Já não é a primeira vez que a Marvel usa as suas BD para chamar à atenção para causas sociais ou para fazer crítica no que toca a grandes conflitos mundiais. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial o Capitão América surgiu numa das suas histórias a esmurrar Hitler. Só que ao contrário de muitas das histórias da Marvel, esta não nos deixa encantados, mas sim aterrados. Esta é uma história real, contada na primeira pessoa por uma mãe desesperada que já não vive, apenas sobrevive. Mas que tem o condão de não deixar o mundo esquecer-se da sua responsabilidade perante as vítimas inocentes de um conflito que se arrasta há cinco anos e que já roubou a vida a mais de 470 mil pessoas.