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Expresso

As aulas de etiqueta para meninas são ridículas

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Têm entre os 4 e os 15 anos, vestem-se todas de uniforme cor-de-rosa, usam tiaras ou laços brilhantes na cabeça e, durante três meses, os pais pagam para que elas possam frequentar uma escola de princesas. Nesse curso, as meninas – só meninas - aprendem atividades como maquilhar-se, fazer a cama, cozinhar e decorar tudo o são regras de etiqueta, desde a forma certa de dobrar um guardanapo, a como colocar os cotovelos quando se está à mesa ou qual a posição correta dos dedos enquanto se bebe um chá. Pelo meio, aprende-se ainda a “superar grandes desafios”, como não entrar em pânico quando “cai um botão do vestido antes de uma festa” ou a tratar de uma mala de viagem – como a do futuro marido, quiçá – sem complicações. Adorava dizer que isto é uma piada de mau gosto, mas não. Esta ‘escola de princesas’ existe mesmo no Brasil e, como se uma não bastasse, acaba de abrir um segundo estabelecimento porque a procura é grande.

Quando li este artigo do Estadão confesso que fiquei perplexa. Não só pelo tipo de estereótipos e mensagem que isto se passa a meninas de tenra idade, mas principalmente pelo discurso da mentora do projeto e também das próprias mães, que acham que estes ensinamentos são enormes mais-valias para o futuro das suas filhas. Afinal, “todas as meninas querem ser princesas, né?”. Muitas sim. Mas esta não é certamente a maneira certa de as incentivarmos a calçarem o sapatinho de cristal.

Atenção: não há nada de mal em deixarmos as nossas meninas brincarem com bonecas, maquilhagens cor-de-rosa, chavenazinhas de chá, tiaras brilhantes e demais adereços dignos de filme de príncipes e princesas. Há que deixá-las brincar, explorar, imaginar, fantasiar, queiram elas ser princesas, futebolistas ou carpinteiras. Mas outra coisa é levá-las a achar que este mundo cor-de-rosa, com tiques de futilidade e submissão, reflete aquilo que é esperado que seja o seu lugar no mundo. Longe vai o tempo em que o que era esperado das meninas, princesas ou não, era precisamente que se tornassem mulheres “belas, recatadas e do lar”, (como Temer tanto gosta). Que dedicassem os seus dias a escolher vestidos bonitos e penteados para estarem sempre dignas e apresentáveis, a decidir o menu do jantar com preceito, a tocar piano e a cantar para entreter o marido ao serão ou a manter a casa impecável para que este se sentisse confortável quando chegava do trabalho. Felizmente, uma boa parte do mundo mudou muito nas últimas décadas e o papel da mulher já não é este. Então, para quê perpetuar esta mensagem?

O problema é as mulheres trabalharem

A cereja no topo do bolo é que neste curso, que ironicamente conta com a participação de psicólogos no delineamento da sua estrutura, não é permitida a entrada de meninos. Mas quando confrontada com o sexismo inerente ao projeto no seu todo, a fundadora enche o peito para dizer que a escola defende o ideal de direitos igualitários entre os géneros. Contudo, defende que homens e mulheres têm “papéis diferentes” (viva a coerência...), e não se coíbe no que toca a passar mensagens este tipo: “A vovó ensinava para a mamãe, a mamãe nos ensinou e hoje a gente não tem mais esse tempo, porque a gente saiu para o mercado de trabalho, vieram vários fatores, então a gente não senta mais com a nossa filha e fala como ela deve arrumar a gaveta, como fazer um arroz". Se calhar era melhor as mulheres deixarem de trabalhar e voltarem a estar em casa a tempo inteiro, dependentes da figura masculina, com o intelecto encalhado, privadas das suas aspirações profissionais, sujeitas à vontade alheia. A educarem as filhas para repetirem o padrão. Mas só as filhas e não os filhos, porque isto de fazer arroz ou arrumar uma gaveta é aparentemente coisa para mulheres. Que retrocesso perigoso alimentarmos esta linha de pensamento, minhas senhoras.

Em que vez de perderem tempo em ensinamentos sexistas e retrógradas como estes, talvez fizesse mais sentido agarrarem no universo das princesas e ensinarem as vossas meninas a não temerem a liderança do seu reino. Estimularem-nas a usar o intelecto, a desenvolverem o raciocínio, a darem largas à criatividade, a expressarem a sua opinião, a defenderem as suas ideias, a perceberem que podem tomar as rédeas da sua vida e serem o que quiserem para lá das paredes do castelo. Aprenderem desde cedo que a submissão não é um caminho a seguir e que o respeito e a igualdade são valores que devem aspirar para as suas vidas, seja na privada, na profissional ou na social. E compreenderem que podem abraçar tudo isto sem que a sua feminilidade seja posta em causa. Ah, e já agora, que os meninos também podem ser princesas.

Querer ser princesa e gostar de usar cor-de-rosa não é definitivamente o problema. O problema são os estereótipos que se continuam a colar a estes símbolos.