Siga-nos

Perfil

Expresso

Mulheres, cresçam: os homens são todos assim

  • 333

Donald Trump no final da campanha presidencial na Flórida a 12 de Outubro 2016

FOTO MIKE SEGAR/REUTERS

Pelo menos é o que Scott Baio acha, mas não, digo eu, felizmente não são. Ao que parece, a generalização do comportamento masculino é a mais recente e bacoca arma de arremesso dos defensores de Trump. Já toda a gente ouviu as frases ditas pela candidato presidencial em 2005 e que acabaram por vir a público há uns dias. Não vou perder muito tempo com o que já toda a gente sabe: por mais que ele se defenda a dizer que não passava de “conversa de balneário” e que nunca passou das palavras aos atos, as suas frases espelham a tremenda falta de respeito pelas mulheres que tem demonstrado ao longo das últimas décadas. Um comportamento que não é novidade e que, aliás, corre por isso o risco de ser desvalorizado porque já nem sequer surpreende. Trivializar comportamento sexista de Trump é grave? Sim, óbvio que é. Mas parece estar mesmo a acontecer.

Julguei que depois do pedido de desculpas mal amanhado feito por Trump seria pouco provável que mais alguém viesse em sua defesa. Confesso que, ingenuamente, cheguei até mesmo a pensar que era desta que os seus camaradas republicanos teriam um momento ‘eureka’ e que baixariam os braços no que toca a defender os comportamentos e conduta condenáveis de Trump. Mas não. Pelos vistos, há por aí muita gente a achar que este tipo de conversa é só uma coisa normal e que não revela em nada o tipo de valores desta pessoa.

Dou-vos três exemplos, cada um pior que o outro. Comecemos por Rudy Giuliani (que também já tentou a corrida à presidência pelos republicanos em 2008), que desvaloriza as palavras de Trump porque, simplesmente, “é assim que os homens falam”. A sério que vamos reduzir o comportamento masculino a frases do género? Contudo, o filho de Trump parece concordar com isto e meteu os pés pelas mãos ao dar uma entrevista em defesa do pai. Na sua óptica, alusões ao abuso de poder para conseguir ter relações sexuais com uma mulher ou a sugestão de contacto físico à força não passam de um “comportamento normal quando os machos alfa se juntam”. Se isto não fosse tão grave até dava para rir.

O ator Scott Baio é um dos defensores de Trump

O ator Scott Baio é um dos defensores de Trump

FOTO MIKE SEGAR/REUTERS

Se eu fosse homem sentir-me-ia ofendido

Esta banalização daquilo que supostamente é o comportamento habitual dos homens – que pela boca destes senhores devem ser todos metidos no mesmo saco - é ainda corroborada por um indignado Scott Baio, que defende a falta de escrúpulos e atitude sexista de Trump com mais uma dose de sexismo e ironia barata: “Eu gosto do Trump porque ele não é um político. Ele fala como um gajo. E senhoras deste mundo, é assim que os homens falam quando vocês não estão à volta. Se se sentem ofendidas com isto, cresçam. É assim que o mundo funciona”.

No mínimo, as palavras do ator – que já no passado fora militante de Reagan e que agora defende também Trump com unhas e dentes – são tão ridículas quanto preocupantes. Se eu fosse homem sentir-me-ia não só chocado com esta generalização, como ofendido. Por um lado, é uma generalização sem fundamento, mal fora se metade da população mundial tivesse por hábito cometer assédio ou forçar contato sexual. Por outro, é um reflexo da tal linha de pensamento machista ainda tão vincada, mesmo que até de forma inconsciente, sobre a qual falava por aqui na sequência da frase “as leis são como as meninas virgens, são para serem violadas”. A violência e o assédio sexual continuam a ser aceites e desvalorizados.

Na tal gravação, Trump gabava-se de que não esperava para começar a tocar nas mulheres que lhe interessavam. “Começo logo a beijá-las”, dizia o candidato presidencial, entre outras frases tão ou mais escabrosas quanto estas. “ Nem sequer espero. Mas quando és uma estrela não precisas de esperar, podes fazer-lhes tudo. É só agarrar-lhes na co...”. Segundo as declarações destes três senhores atrás, todos eles casados e pais de jovens mulheres, Trump não passa apenas de um homem como todos os outros. E o que disse não é grave, é só normal.

O comportamento odioso para com as mulheres é a ponta do icebergue

Outro dos problemas é esta percepção normalizada que muitas pessoas também ainda têm sobre o que é um abuso. Basta pensarmos na discussão em torno da famigerada lei dos piropos, quando tanta gente não percebeu sequer que o que estava em causa era o assédio sexual e demais comportamentos abusivos. Escusado será dizer que esta linha de pensamento gera muita confusão também a quem é alvo de tais abusos e que acaba por considerar que, por exemplo, um apalpão, um beijo forçado ou um comentário lascivo é algo, lá está normal. Mas não é.

Ainda hoje o New York Times avança com a notícia de duas mulheres que apresentaram queixa às autoridades após ouvirem a gravação de Trump. Ambas afirmam ter sido assediadas por Trump, que as terá apalpado e beijado à força no passado. Ambas alegam ter passado pelo mesmo tipo de situação poucos minutos depois de se terem cruzado com ele, uma num avião, outra num elevador. Garantem ter-se sentido ofendidas e incomodadas com tal comportamento, mas admitem que nunca lhes passou pela cabeça apresentar queixa. Convenhamos, muito provavelmente nenhuma delas seria levada a sério se o tivesse feito e é esta sensação de impunidade que leva a que muito predadores se sintam à vontade para exercer tal tipo de abusos. Abusos esses que podem acontecer a qualquer um de nós.

Não sejamos, contudo, hipócritas: todos nós já fizemos piadinhas com enfoque em performance sexual quando estamos entre amigos e não me parece nada de extraordinário ou de ofensivo que isto aconteça. Mas há uma linha entre alguém dizer um trocadilho em tom gabarola ou alguém puxar dos galões para se gabar, com orgulho, de comportamentos abusivos consumados. Por mais que Trump garanta que hoje é um homem diferente do que era há dez anos, quando fez tais comentários, é importante relembrar que Trump não era propriamente um adolescente inconsequente quando as disse. Tinha 60 anos (idade para saber bem o que diz, parece-me), uma vida inteira para trás, vida conjugal, filhas. O abuso de poder, a vários níveis, já não é novidade no seu percurso, mas não é isso que o torna menos grave. O comportamento odioso para com as mulheres não passa da ponta do icebergue. É mesmo este tipo de pessoa que se espera para Presidente de uma das maiores potências mundiais?