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Expresso

Não, as meninas virgens não são para ser violadas

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Antes demais, há algo que embora me pareça básico, de vez em quando deve ser relembrado: a violação sexual é crime. Que não sobrem dúvidas quanto à gravidade de tal ato criminoso nem quanto às suas consequências aos olhos da lei. Contudo, continua-se a usar a palavra ‘violação’ amiúde, ora em piadinhas, em metáforas ou em comentários que muitos consideram apenas “infelizes”, mas que merecem alguma reflexão por parte de todos nós. Por que é que a palavra violação e a sugestão de tal ato como algo que se sabe que é errado, mas que, de certa forma, até parece algo normal, continua a ser invocado de todas estas maneiras? Por que é que numa manifestação sobre o transporte de passageiros, a primeira comparação que passa pela cabeça de um homem que quer exprimir a sua indignação, é esta: “As leis, sabe como é que são? São como as meninas virgens. São para ser violadas.”?

Não podemos considerá-la simplesmente uma frase infeliz, dita num momento de tensão. Não é apenas uma casualidade, tal como não é sinal direto de que este senhor em causa seja um potencial violador. A verdade é que a violência e o assédio sexual continuam a ser aceites, escondidos e desvalorizados. Ninguém tem dúvidas quanto ao facto de esse mesmo ato ser um crime, mas se for praticado, por exemplo, desde as quatro paredes de um casamento, uma violação talvez até nem seja assim uma coisa tão grave. Se calhar, diriam muitos, até nem é mesmo uma violação. As vítimas, essas continuam a ser postas recorrentemente em causa, envoltas numa rede de medo e de vergonha, culpabilizadas pelo ato. Um crime inconcebível, mas que acontece tantas vezes que até já se tornou banal, digno de piadola. E isso é um enorme perigo.

Talvez muita gente não goste de admitir isto, mas ainda vivemos numa sociedade onde a mulher é uma figura submissa. Ou que se quer submissa. Pode estar a mudar, mas estamos longe de a figura feminina deixar de ser vista desta forma. Ensinamos os miúdos a serem fortes e duros, mesmo que usem a força para validar a razão (a manifestação de ontem mostra o resultado disso mesmo). Já as miúdas, continuamos a ensiná-las a serem discretas, pacientes e tolerantes. A não questionarem, a calarem, a aceitarem. Basta olhar para os números da violência dentro dos namoros adolescentes para se perceber que tudo isto se vai refletindo num padrão de agressões que se repete mais uma vez. Há quem diga por aqui que sou “uma gaja que odeia os homens”. Desculpem, não é verdade. Sou só uma gaja que odeia o machismo, um comportamento perpetuado por homens e mulheres e que está muito presente ainda nos tempos de hoje. Se têm dúvidas, as palavras inqualificáveis ditas por este senhor ontem, em direto para a televisão, sem qualquer pudor, são um bom exemplo disso. Talvez ele até tenha mulher, filhas e netas, mas aquela foi a primeira comparação que lhe veio à cabeça. É normal? Infelizmente, é mais normal do que gostamos de acreditar.

A sexualização da imagem feminina, a conquista do troféu

Quanto às meninas virgens, continuam a ser sexualizadas mal o corpo se desenvolve e vistas como um troféu que deve ser conquistado. E quem lhes consiga “roubar” aquilo que muitas vezes ainda lhes é vendido desde tenra idade como “a sua maior preciosidade”, é um garanhão. Como se o ato sexual fosse uma batalha e aquilo que devia ser uma experiência natural de intimidade e prazer não passasse afinal de uma demonstração do poder do macho. Um ato de domínio e de posse. Antigamente mostravam-se lençóis com manchas de sangue à janela, sinal de pureza (enfim, seja lá o que isso for) e da capacidade viril do homem ao rasgar a mulher casta, mesmo que esta não o quisesse. Felizmente hoje já não é assim, mas as meninas virgens, como diria este senhor, continuam a existir para ser violadas. E há muita gente que diria o mesmo, refugiando-se no tom de uma piadinha brejeira. Muito provavelmente à frente dos próprios filhos, sem pensar duas vezes na mensagem e validação que lhes estão a passar. Como se dizer isto não fosse nada de mal, nem um sinal claro de que é urgente educar as próximas gerações para outra mentalidade onde não exista espaço para desvalorizarmos a violência. Repudiá-la, e explicar aos novos porquê, é urgente. Tão urgente.

Não basta fazer gestão de danos, é preciso preveni-los. Estima-se que em Portugal, 1 em cada 4 mulheres, com 15 e mais anos, foram vítimas de violência física e/ou sexual. Embora ainda insuficientes, já demos grandes passos no que toca à proteção das vítimas. Mas não podemos menosprezar a importância de ações concretas que informem, sensibilizem e eduquem. Ações que levam muitos anos até produzirem efeitos práticos nas sociedades, é certo, mas que por isso mesmo devem ser implementadas o quanto antes.

No tal estudo sobre a prevalência e legitimação da violência no namoro, desenvolvido pela UMAR, concluiu-se que um terço dos rapazes inquiridos achava legítimo exercer violência sexual e que 14,5% das raparigas não considerava violência forçar um beijo ou sexo. No seguimento destes números, o Governo lançou na semana passada a campanha "Muda de curso - violência no namoro não é para ti", para a qual conta com as federações académicas do país a seu lado. Um passo que pode parecer pequeno, mas que pode representar um caminho gigante de mudança de comportamentos daqui a uns anos. E muito provavelmente ajudar a que os miúdos de hoje já não digam barbaridades como a que foi dita ontem. Porque percebem a sua gravidade.