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Expresso

Esta menina de sete anos relata a guerra em Aleppo no Twitter

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Bana Alabed

“Preciso de paz”. Foi no dia 24 de setembro que Bana Alabed, de sete anos, com a ajuda da sua mãe, criou uma conta de Twitter onde deu início à sua atividade precisamente com esta frase. Simples, nua e crua, totalmente desconcertante quando a lemos no conforto dos nossos lares, onde a paz é um dado adquirido. Mas para quem vive o terror que se enfrenta atualmente em Aleppo, na Síria, esta é uma necessidade básica que demora a ser uma realidade.

Dia após dia, Bana e a mãe fazem um diário das suas vidas em Aleppo. Um relato partilhado em poucas palavras, mas com todo o peso de uma realidade de medo constante e luta pela sobrevivência, vista pelos olhos inocentes de uma menina que sonha um dia ser professora e que tudo o que mais quer agora é poder ir à escola e brincar com as amigas na rua. O que lá se passa atualmente, só não sabe quem não quiser. Aidna há poucos dia os Médicos Sem Fronteiras já pediram oficialmente a Damasco e Moscovo para terminarem o “banho de sangue” na cidade. E ontem, as Nações Unidas avisaram também que "no máximo em dois meses, dois meses e meio, a cidade do leste de Aleppo pode estar totalmente destruída”. Após o curto cessar-fogo, que terminou com o ataque a uma coluna de ajuda humanitária, os bombardeamentos por parte das forças governamentais - com o apoio da aviação russa - já mataram um sem fim de civis, incluindo crianças. Mais de 275 mil inocentes estão presos neste cerco.

Nesta conta de Twitter, as protagonistas nunca revelam em que zona de Aleppo se encontram, o mas o cenário de caos é constante. O contraste das várias imagens publicadas pela criança e pela mãe, mais uma vez, é desconcertante. Ora surge Bana a ler ou a fazer desenhos, igual a tantas crianças mundo fora, como surge a pequenita a ouvir os bombardeamentos frente à janela sem vidros da sua casa, encolhendo-se com terror a cada nova bomba que cai perto do prédio. Ninguém quer ver uma criança a passar por isto. Ninguém quer assistir na primeira fila ao massacre de milhares de inocentes. Mas o “verdadeiro holocausto” – como a mãe da menina descreve - que se vive atualmente em Aleppo precisa de ser testemunhado pelo mundo e é por isso que mantêm este relato da vida real.

Numa entrevista por Skype ao The Guardian, Fatemah revelou que a ideia surgiu quando a filha lhe fez uma pergunta tão ingénua quanto difícil: “Por que é que o mundo não nos ouve? Por que é que ninguém nos vem ajudar?”. A mãe tentou explicar-lhe que talvez as pessoas não tivessem noção, mas a criança não ficou convencida. E foi assim que se lembraram do poder das redes sociais e da sorte que era ainda conseguirem ter rede para obrigar o mundo a ver o que se está a passar na sua cidade. Por que é que não fugiram? Porque aquela é a sua casa, porque todos achavam que a guerra não duraria mais que um ano, porque não querem deixar os mais velhos para trás. Porque pertencem ali, como tantos outros que nada têm a ver com rebeldes ou terroristas. Porque têm esperança de recuperar a sua vida. Tão simples e legítimo quanto isto.

Bana não vai à escola, poucas vezes tem água em casa e a pouca comida que lhe chega à mesa é massa e arroz cozido. Viveu mais de metade da sua vida numa guerra que parece não ter fim. Viu amigas da sua idade perderem a vida, viu familiares desaparecerem sem explicação. O medo e a ansiedade não a deixam dormir mais de quatro horas por dia. Num tweet rápido, explica o que lhe tira o sono: “As pessoas estão a morrer como moscas. Não sei o que se vai passar a seguir, as bombas estão a cair como chuva”. O que será do futuro desta criança, se conseguir sobreviver?

A alteração do que se passa na sua vida aparece no Twitter a um ritmo angustiante para as mais de 50 mil pessoas que já a seguem diariamente. Por exemplo, num vídeo surge com os irmãos mais pequeninos a fazer desenhos e a abraçá-los. Felizes por estarem vivos. Poucas horas depois surge novo tweet: “Estamos a ser bombardeados. Rezem por nós”. Esta segunda-feira, um novo vídeo da pequenita, num inglês esforçado, resume que “a última noite foi um milagre, estamos a salvo”. No mesmo dia, já à noite, Bana surge junto à janela a abraçar e a tapar os ouvidos ao irmão de cinco anos, enquanto se ouvem bombas como som de fundo. A legenda transmite o terror da própria mãe: “O Mohamed está a chorar, as bombas continuam a cair. Prefiro morrer a deixar que ele seja morto”.

Há menos de 24 horas, o apelo da pequena Bana era este: “ Por favor parem esta guerra. Estamos cansados”. Será que alguém a ouviu? Ou será que é preciso que ela se torne em mais uma mártir desta guerra grotesca para o mundo se indigne?