Siga-nos

Perfil

Expresso

As Chicas Poderosas querem fazer uma revolução em Portugal

  • 333

Mariana criadora do projeto "Chicas Poderosas", na Costa Rica. É uma organização sem fins lucrativos

Cruzámo-nos há umas semanas pela primeira vez, mas bastaram-me pouco minutos com a Mariana para perceber que estava perante uma verdadeira força da natureza. Ela tinha acabado de chegar a Lisboa e na bagagem trazia um percurso profissional invejável, que pouco tem a ver com Portugal. França, Alemanha, Suécia, Inglaterra, Costa Rica, Argentina, Estados Unidos: com 33 anos, a designer Mariana Moura Santos já passou por redações bem distintas onde conquistou o seu lugar ao sol. Pelo caminho também encontrou muitos obstáculos, sendo um dos maiores a falta de companheiras de jornada. No jornalismo, tal como em tantos outros meios, o universo da tecnologia era maioritariamente masculino. Os cargos de chefia eram praticamente todos liderados por homens e o trabalho das mulheres tantas vezes ainda olhado de lado.

Mariana acredita que é preciso mudar esta tendência e que a partilha de conhecimentos pode ser um passo gigante nesse sentido. Em suma, é essa a base do maravilhoso projeto que criou na Costa Rica e que depois de se ter expandido um pouco por toda a América Latina e Estados Unidos, chega agora a Portugal. O nome, à partida, tem piada: Chicas Poderosas. Mas engane-se quem acha que o que elas fazem é para rir. Em poucos anos, Mariana conseguiu criar uma rede de mais de 1700 “chicas” (e chicos também!), que, numa sinergia harmoniosa, promove a partilha de competências, o acesso a grupos de trabalho e a interiorização da necessidade crescente de igualdade oportunidades no mundo profissional. O mundo tecnológico foi só um ponto de partida.

Deste lado do Atlântico, Portugal é o primeiro país a receber as Chicas Poderosas, atualmente uma organização sem fins lucrativos. Durante quatro dias vão estar na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, a fazer aquilo que Mariana descreve como “uma revolução de mentalidades”. Com acesso gratuito, querem promover a mudança, o crescimento, a criatividade e a liderança #miudaAmiuda, a hashtag que têm usado para promover o evento.

Quanto me cruzei com ela pela primeira vez, falei-lhe precisamente na palavra “miúda”, termo que persegue tantas jovens mulheres com uma sombra no meio profissional. Expliquei-lhe que por cá, ao contrário de tantos dos países por onde ela andou, ser “miúda” é algo depreciativo, uma forma quase paternalista de menosprezar as competências profissionais de uma mulher usando uma só palavra. A resposta dela? “A sério? Isso não faz sentido nenhum. Nem a idade nem o género são um posto, já está na altura de se começar a perceber isto”. Amanhã, esta conclusão tão simples, mas que tanta gente resiste a entender, vai ser um dos pontos de partida deste evento dedicado a mulheres, mas onde os homens também são bem-vindos.

Se acham que isto não faz sentido, lembrem-se, por exemplo, desta realidade: embora as mulheres representem 60% da força laboral do nosso país, ainda recebem, em média, menos 18,5% do que os homens. Para perceberem melhor o que se vai passar em Cascais, deixo-vos esta explicação feita pela própria Mariana.

Afinal, o que é isto das Chicas Poderosas?
É um movimento que se dedica a empoderar mulheres. Começou com o intuito de aproximar jornalistas da imprensa escrita às novas tecnologias e à criação de conteúdos digitais. Ajudá-las a perceberem as ferramentas existentes, pô-las a produzir conteúdos, a fazer jornalismo de dados e aproximá-las dos usuários. Quando criei este projeto, pensei muito num grande mentor que tive no The Guardian, o Alastair Dant, que durante três anos se dedicou a ensinar-me e a tentar fazer de mim a melhor designer possível. Toda esta atenção e dedicação fez com que eu evoluísse, com que a minha carreira disparasse e que tivesse a capacidade de perceber onde é que eu queria chegar. Basicamente, ele não me deu o peixe, ele ensinou-me a pescar. É isso que nós fazemos nas Chicas Poderosas.

Como é que tiveste esta ideia?
No The Guardian eu era uma das pouquíssimas mulheres em tecnologia. E quando cheguei à América Latina, com uma bolsa do International Center for Journalists, percebi que o cenário era igual: havia pouquíssimas mulheres a trabalhar nessa área. Muitas vezes as histórias propostas pelas mulheres não ganhavam forma porque poucas tinham poder de decisão ou conhecimentos tecnológicos avançados. Tudo era controlado por homens e elas ficavam para trás. Decidi então criar um programa de mentoria para simular o que eu tinha tido no The Guardian com o Alaistar . Ou seja, um programa com pessoas que trabalham em tecnologia digital, dos mais diferentes jornais do mundo, que vinham de propósito para ensinar o que sabiam a estas chicas que queriam tanto aprender. Um sítio onde elas pudessem partilhar, errar à vontade e crescer juntas. E a ideia disparou completamente. Acabou por se transformar numa enorme rede, onde mulheres de quase toda a América Latina podem fazer projetos em conjunto. Hoje, as Chicas Poderosas pensam globalmente, mas agem localmente com as embaixadoras de cada comunidade.

E é só para chicas ou os chicos também são bem-vindos?
Chicos são bem-vindos, claro. Não era só para mulheres, mas é dedicado às mulheres porque o ambiente tecnológico consegue ser muito masculino. Muitas mulheres chegam e não se sentem confortáveis, ficam presas ao receio de não terem nada a acrescentar, têm medo de ver o seu trabalho desvalorizado, não se sentem à altura. Muitas acabam por nunca investir nesta área, por mais que gostem dela. As Chicas Poderosas tencionam desmistificar um pouquinho a tecnologia e criar um espaço que dá as boas-vindas a quem ainda não é um grande conhecedor da área, mas que quer vir a ser.

O que vai acontecer no primeiro evento das Chicas por cá?
Uma revolução tecnológica, empreendedora e de mentalidades. Vamos tentar mostrar que juntas podemos criar uma mudança social. Desmistificar que isto do feminismo não tem de ter conotação negativa. Queremos dar voz aos casos de sucesso em Portugal (espreitem o programa aqui para ver quem vai estar por lá). Vamos ter conversas e debates, dar workshops, fazer formação com inúmeros convidados e criar grupos de trabalho locais. Queremos dizer a todos que podemos ser melhores do que isto. Vamos criar uma sinergia feminina de mudança, de eliminação de preconceitos, de rejeição destes rótulos e dos obstáculos culturais, emocionais e práticos. Estamos à beira do Web Summit em Portugal, que vai ser também uma revolução tecnológica. E nós queremos que as mulheres portuguesas façam parte dela.