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Expresso

O feminismo chegou ao mundo da moda?

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Desfile primavera/verão 2017, em Paris, da designer italiana Maria Grazia Chiuri para a casa Dior

FOTO GONZALO FUENTES/REUTERS

“Todos devíamos ser feministas”. Se há uns dias me dissessem que a peça de roupa que mais ia dar que falar no desfile da Christian Dior, em Paris, era uma t-shirt branca, do mais básico que existe, com uma frase escrita em letras pretas, também de estilo simples, eu não acreditava. Mas bastou-me espreitar as fotografias do desfile para entender tanto furor: o feminismo chegou àquela que é uma das maiores casas da moda do mundo, pela mão de Maria Grazia Chiuri, nada mais, nada menos, do que a primeira mulher a assumir a direção criativa da Dior em quase 70 anos de vida da marca. E chegou sem vergonha ou pudores, e com uma mensagem clara, ora estampada em letras garrafais, ora passada de forma simbólica. Tão simbólica quanto o cargo de Chiuri, num mundo onde esta posição é ainda um pelouro predominantemente masculino.

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Não sou uma pessoa profissionalmente muito ligada a este universo, mas no que toca à celebração da figura feminina no seu todo, não posso deixar de reparar que são tempos interessantes os que se vivem atualmente no mundo da moda. Há cerca de dois anos, França avançou com uma alteração de lei, com vista à proibição de modelos excessivamente magras, impondo multas avultadas seja a designers, marcas ou agências de modelos que não assegurem os índices de massa corporal mínimos estabelecidos. Já no mundo da publicidade relacionada com moda, o Reino Unido fez finca-pé ao questionar a barreira entre a componente artística das imagens e a mensagem que elas passam às massas nas campanhas. Mas também nos maiores eventos de moda do mundo algo parece estar a mexer.

A beleza como algo abrangente, diverso e pouco castrador

No que toca a desfiles, por exemplo, no ano passado assistimos à participação de uma modelo portadora de síndroma de down durante a Semana da Moda de Nova Iorque. Em Milão, a dupla Dolce & Gabanna surpreendeu também com um elogio à maternidade, incluindo uma grávida no seu desfile. Em 2016, as iniciativas de inclusão e celebração da beleza, como um conceito mais aberto, abrangente, diverso e pouco castrador, continua. Em Nova Iorque fez-se história com uma sobrevivente de um ataque com ácido sulfúrico a percorrer a passarela. No mesmo evento fez-se novamente uma ode às mulheres volumosas, com a fabulosa Ashley Graham a encabeçar um desfile de lingerie para corpos que vestem acima do número 42. Já em Milão, o momento alto dos desfiles aconteceu com a participação da maravilhosa Lauren Hutton, atualmente com 72 anos, lado a lado com Gigi Hadid no desfile da Bottega Veneta. A supermodelo Eva Herzigová, hoje com 43 anos, também brilhou no mesmo desfile, que marcou o 50º aniversário da marca, em jeito de comemoração da beleza nas diferentes fases da vida.

FOTO GONZALO FUENTES/REUTERS

Agora foi a vez da Dior. Entre t-shirts com mensagens escritas, modelos inspirados em fatos de esgrima, onde as diferenças de género ficam propositadamente esbatidas, e saias de tule onde não faltam motivos inspirados em símbolos de feitiçaria – quiçá, a deixar claro que hoje as mulheres já podem fazer e dizer o que quiserem, sem serem consideradas bruxas que devem ir parar à fogueira quando começam a questionar os dogmas do homem -, Maria Grazia Chiuri apresentou uma coleção que nos deixa a pensar.

Mas não sejamos ingénuos: é claro que o feminismo é também uma óptima estratégia de marketing que neste momento vende. E vende bem, não há dúvidas. Um pouco por todo o mundo, os olhos têm estado postos nesta palavra, que tanto gera furor como controvérsia. Alguns entendem-na, outros não. Muito defendem-na com unhas e dentes, outros repudiam-na em praça pública como se fosse algo ridículo. Mas uma coisa é certa: há muitas décadas que não se falava tanto, e de formas tão variadas, sobre empoderamento feminino e igualdade de género. Como se podia ler noutra t-shirt assinada por Maria Grazia Chiuri, estamos perante uma “Dio(R)evolution”. Um trocadilho que é uma bela alavanca para algo que me parece claro: as revoluções de pensamento levam-nos à evolução. Se as grandes marcas mundiais puderem contribuir para isto, nada contra. Negócio por negócio, que se passe uma mensagem construtiva pelo meio.