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Expresso

Hillary Clinton não é suficientemente atraente

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FOTO LUCAS JACKSON / REUTERS

A frase que serve de título a este texto é baseada num dos muitos comentários do género feitos a Hillary Clinton, durante aquele que é provavelmente o debate político da década. Este, em concreto, não foi feito por Trump, mas sim por um comentador da Fox News, que a descreveu como “compostinha”, “presunçosa” e “pouco atraente”. Trump, sem surpresas, também não se privou de tecer comentários sobre a aparência física da candidata democrata, mesmo que estes sejam ofensivos para milhões de mulheres do mundo inteiro. Nas palavras do candidato republicano, “ela não tem a aparência certa” para ser Presidente. Porque como todos sabemos, ser atraente é obviamente uma característica indispensável a um candidato presidencial e a um bom líder de Estado. Escusado será dizer que estou a ser irónica.

Não vou perder muito tempo a dissertar sobre quão idiota e redutor continua a ser este tipo de argumento baseado na aparência, coisa que raramente acontece quando estamos a falar do sexo masculino. Há muitas críticas tecidas a Donald Trump, mas em pleno debate eleitoral, não me parece que tenha ocorrido a Clinton – ou a qualquer comentador político – usar o aspeto físico do seu rival como argumento. Já na equação do que diz respeito à avaliação do sexo feminino em contexto profissional, este continua a ser um dos factores tidos em conta. Algo que não passa de uma tremenda forma de discriminação, de sexismo e de desvalorização das potenciais qualidades profissionais de alguém.

Não sou a maior fã de Hillary Clinton à face da terra, mas sou assumidamente contra tudo o que Donald Trump representa. Contudo, continuo a bater o pé quando oiço que é importante eleger Clinton porque ela é mulher. Por mais simbólico que isso possa ser, este argumento é simplesmente oco e, além disso, pejorativo: não se elege um líder pelo seu género, mas sim pelas suas capacidades e qualidades para o cargo, parece-me óbvio. Neste caso, nitidamente é Hillary quem pode dar mais e melhor. Contudo, não estou aqui para falar de política – deixo isso para os colegas das colunas ao lado, que realmente percebem do assunto – mas não posso deixar de abordar estas pequenas grandes subtilezas sexistas, que muitas vezes vemos sentados na primeira fila, mas sobre as quais não perdemos tempo a pensar.

“É este o Presidente que querem para as vossas filhas?”.

Hillary Clinton e a equipa responsável pela sua campanha voltam a dar uma ajuda nisto. Se os exemplos que dei em cima não são suficientes para se perceber quão misógino Trump – tal como muitos dos comentadores políticos - consegue ser, o último vídeo de campanha de Clinton relembra-nos alguns dos momentos de verdadeira violência verbal contra as mulheres cujo protagonista é o atual candidato à Casa Branca. Durante 28 segundos, surgem várias adolescentes norte-americanas que se veem ao espelho enquanto ouvem barbaridades como estas: “ele comeu como uma porca”; “ela é uma puta”; “olhei para a cara feia e gorda que ela tem”; “é muito difícil que uma pessoa que tem peito pequeno seja nota 10". E quando lhe perguntam se trata as mulheres com respeito, a resposta e clara: “Não posso dizer que sim”. No fim do vídeo, surge a questão: “É este o Presidente que querem para as vossas filhas?”.

Hillary Clinton não é uma santa, nem muito menos um exemplo de excelência no que toca a honestidade. E claro que isso também tem sido usado contra ela nos últimos meses. Mas isso não lhe tira a razão quando aborda questões morais básicas como esta, numa sociedade que se quer de primeiro mundo. Não podemos esperar isenção da sua parte num vídeo de campanha eleitoral, não é esse o intuito. Mas apontar o dedo a Trump só é tão fácil porque a sua postura violenta, racista, preconceituosa e misógina é exibida publicamente pelo próprio, com orgulho. E aplaudida por muitos que se reveem nela e que a perpetuam longe dos holofotes – não são de admirar, por exemplo, os números gigantes relacionados com violência doméstica nos Estado Unidos.

Termos mais um grande líder mundial que promove este tipo de comportamento é um perigo. E é por isso que partilho aqui hoje este vídeo da campanha de Hillary Clinton. Na minha opinião, não era preciso ter usado crianças e adolescentes para passar uma mensagem tão primordial como a deste vídeo. E no final, não deviam revelar preocupação apenas com as filhas, mas também com os filhos: o sexismo afeta-nos a todos enquanto sociedade. Mas num país – ou melhor, num mundo – onde o respeito pelos valores mais simples, como o respeito e a igualdade, continua a ser um verdadeiro problema social, talvez faça sentido puxar pelo sensacionalismo para que se consiga entender o básico.

Percam 28 segundos para ver isto e pensem um bocadinho: seja ou não seja Trump a dizer tais frases, é mesmo isto que queremos para o nosso futuro?