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Expresso

Estes três homens portugueses dão voz às mulheres indianas

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Uma rapariga indiana, de quinze anos, fica sentada, em silêncio, no meio de uma multidão que discute quanto é que ela vale. No fim, é entregue à família do noivo tal qual mercadoria, em troca de um dote que não passa de uma pulseira de ouro, um brinco para o nariz e uns brincos. Sem opção, é obrigada a dizer que aceita. Falha-lhe a voz, mas tem de o repetir três vezes seguidas. Chora. É levada no minuto seguinte para a carrinha da sua nova família, pessoas que mal conhece. Entre lágrimas de medo e tristeza, pedem-lhe que sorria para uma fotografia. Afinal, é suposto um casamento ser um momento feliz. Na mesma cidade, Afreen grita na rua frases como “o casamento de menores é crime” ou “parem com a violência contra as mulheres”. A violência, conhece-a bem: foi violada quando tinha apenas seis anos. Um episódio que a traumatizou para toda a vida e que lhe roubou para sempre a possibilidade de ser mãe. A luta de Afreen conta com o apoio incondicional de Usha, uma jovem mulher que durante uma tentativa de violação conseguiu salvar-se graças às calças de ganga apertadas que vestia. Hoje, é ela a grande líder da Brigada Vermelha, um grupo de mulheres que luta pelos direitos das mulheres na Índia. Tiago Carrasco, João Fontes e Pedro Gancho são os três homens portugueses que decidiram dar voz a todas estas mulheres do norte da Índia.

O documentário “Red Brigade”, assinado por estes três senhores, é um verdadeiro murro no estômago. Uma viagem inquietante ao seio de um grupo de meninas, adolescentes e jovens mulheres que conhecem de cor as palavras submissão, discriminação e violência. Praticamente todas elas foram abusadas no seu passado. Umas foram vítimas de assédio, outras vítimas de violações, muitas vezes em grupo, algumas repetidamente e dentro do seu círculo íntimo. Todas tentam ultrapassar diariamente o trauma, mas já não o vivem em segredo: fizeram queixa às autoridades, partilham-no com as amigas da Brigada Vermelha e, juntas, tomam a iniciativa de tentar fazer justiça quando o mesmo acontece com outras meninas, adolescentes e mulheres da sua região. Manifestam-se em praça pública e vão de escola em escola, e aldeia em aldeia, dar aulas de defesa pessoal. Ações que podem parecer simples, mas que são na realidade passos gigantes para que a mudança aconteça, dentro de um sistema patriarcal que continua a subordinar a figura feminina e a responsabilizá-la pelos crimes dos homens.

Mas como é que três homens, ocidentais, conseguem chegar à intimidade de um grupo de mulheres indianas que se dedicam a uma causa tão difícil e frágil quanto a violência sexual? Tudo começou no Martim Moniz, em Lisboa. Tiago tinha regressado de uma viagem pela Índia, aquando das gigantes manifestações levadas a cabo após a violação coletiva de uma estudante, que chocou Deli em dezembro de 2012. Ouviu falar da Brigada Vermelha nessa altura e chegou a Portugal com uma certeza: queria contar a história daquelas meninas-mulheres coragem. Pedro e João abraçaram a ideia e a produtora Até ao Fim do Mundo deu-lhes a mão para que pudessem realizar o projeto. Na bagagem, traziam já uma vasta experiência em cenários complicados e, dois deles, um Prémio Gazeta Multimédia atribuído ao trabalho “A Estrada da Revolução”, sobre a primavera árabe.

E é assim que chegamos a uma loja de telemóveis no Martim Moniz. Com a ajuda de um indiano a viver em Lisboa, conseguiram estabelecer o primeiro contacto com a Brigada Vermelha, que aceitou desde logo o pedido de entrevista. Espalhar a palavra e mostrar ao mundo a realidade que muitas mulheres ainda vivem no seu país é um objetivo assumido do grupo indiano. Com a ajuda de tradutoras, criou-se o elo e estes três magníficos fizeram-se à estrada, para um mês de filmagens.

A violência contra a mulher é um problema só da Índia ou do mundo?

O resultado é este documentário (espreitem o trailer em baixo), que mais do que explorar os relatos dolorosos das situações macabras vividas por estas mulheres, dá palco à capacidade de empoderamento, transformação e recuperação da esperança que a Brigada Vermelha tem nelas. É quase uma ode ao ativismo feito por meninas e mulheres que não se resignam à tradicional condição feminina imposta pelas tradições do país onde nasceram. À luta difícil e constante pela dignidade e mudança de mentalidades.

Tive o privilégio de poder ver recentemente este documentário, que já passou por festivais em Coimbra, Paris e Chişinău. Na Índia, tem sido negada a sua participação em eventos do género. E em Lisboa ainda não conseguiram uma grande sala que sirva de palco para a merecida projeção deste fabuloso trabalho. O tema, todos sabemos, não é fácil. Aliás, é incómodo. Esta é uma realidade que não convém a ninguém e que, quem não a vive de perto, prefere ignorar por que acontece lá longe. O que não nos podemos esquecer é que a violência contra as mulheres é um problema do mundo. Transversal, independentemente de quão maiores ou menores sejam as estatísticas. Mostrar, partilhar e destacar um trabalho como este é promover a mudança, e essa é urgente.

Na última década, contabilizaram-se oficialmente mais de dois milhões de crimes contra as mulheres indianas e estima-se que a cada dois minutos que passam alguma mulher é exposta a uma situação de perigo. A violência extrema motivada por crueldade do marido e/ou outros parentes está no topo dos crimes, com dez casos por hora. De acordo com dados das Nações Unidas, 70% das mulheres indianas é alvo de violência física e sexual por parte de um parente próximo ao longo da sua vida. Posto isto, é mesmo de fazer uma vénia às jovens mulheres que fazem parte desta Brigada Vermelha. E aos homens portugueses que lhes deram voz neste documentário.