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Expresso

Um em cada três acha que as mulheres têm culpa nas violações

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Protestos no Brasil contra violações e violência sexual praticados contra as mulheres

FOTO UESLEI MARCELINO/REUTERS

Ainda ontem via um documentário fabuloso feito por três homens portugueses sobre a violência sexual na Índia (na próxima semana conto-vos mais sobre isto), onde um dos muitos pormenores verdadeiramente agoniantes que mostrava era a opinião comum a uma série de homens entrevistados: todos eles achavam que a culpa de violações era, em boa parte, das mulheres. Muitas vezes enchemos a boca para dizer que isto só acontece em países como este, que a religião muçulmana é a grande potenciadora desta selvajaria, que felizmente já não vivemos isso no mundo ocidental, que a ‘nossa’ mentalidade está a anos de luz desta linha de pensamento. E é então que acordamos com os resultados de mais um estudo que mostra quão errado esse pressuposto pode ser.

Num inquérito encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Instituto DataFolha, concluiu-se que um terço de população brasileira considera que a mulher vítima de violação é, de certa forma, responsável pelo ato. Em quase 4 mil entrevistas feitas a homens e mulheres, oriundos de mais de 200 municípios, um em cada três inquiridos afirmou concordar com seguinte frase: “A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada". Já para 37% dos entrevistados, "mulheres que se dão ao respeito não são estupradas". Tanto num caso como no outro, a opinião era partilhada por homens e mulheres, sem grandes diferenças percentuais em termos de género nas respostas dadas. O machismo, com tantas vezes aqui tenho dito, não é exclusivo aos homens, é transversal. Quanto a idades, esta opinião aumenta a partir dos 35 anos e acentua-se nos entrevistados mais idosos.

Por outro lado, 85% das mulheres inquiridas disse temer uma violação, um receio mais comum entre adolescentes e jovens mulheres. No que toca aos homens, foram menos de metade os que afirmaram ter o mesmo medo.

É só na Índia e no Brasil ou a Europa também sofre do mesmo mal?

Num país onde todos os anos se registam quase 50 mil casos de violações, com um grau de incidência gigante nas vítimas do sexo feminino, todo este resultado trazido ontem a público é mais uma prova de quão forte ainda é a cultura machista naquele país, onde ainda impera “um discurso socialmente construído, o qual considera que se a mulher é vítima de alguma agressão sexual é porque de alguma forma provocou esta situação”, lê-se nas conclusões do estudo, que salienta: "Além de afetar a saúde física e psíquica das vítimas diretas, o medo do estupro se coloca como um elemento permanente na vida das mulheres em geral, limitando as suas decisões e o seu pleno potencial de desenvolvimento e a sua liberdade."

O Brasil é um país que enfrenta enormes desafios no que toca à violência de género, mas cujo novo Governo decidiu acabar com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. É o país onde uma adolescente violada pelo próprio pai foi humilhada em tribunal por um promotor de Justiça. É o país onde 30 homens violaram uma adolescente e se regozijaram do ato nas redes sociais, onde depois milhares de pessoas ainda apontaram o dedo à garota e a consideraram de certa forma culpada pelo ato. Porque era mãe adolescente, porque usava minissaia, porque tinha consumos de álcool e drogas, porque não devia andar sozinha à noite, porque se não quisesse ter sido vítima daquela barbárie não andava sozinha à noite na rua, porque vivia numa favela.

O que muita gente se esquece, é que a violência sexual é um drama transversal. Que as tais mulheres e meninas “belas, recatadas e do lar” são igualmente vítimas de abusos, tantas vezes por parte dos próprios maridos, namorados, pais, padrastos, tios, etc. De acordo com o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, referente a 2014, a cada 11 minutos há uma violação a acontecer. A larguíssima maioria das vítimas são mulheres. Não tentemos justificar o injustificável com recurso à roupa, aos consumos ou à conduta. Não há nada que possa menorizar este crime. Um crime que acontece um pouco por todos os extratos sociais do Brasil. Porquê? Porque a violência contra a mulher é aceite culturalmente e este estudo mostra tão bem esta realidade.

Deste lado do Atlântico, a realidade não é assim tão díspar quanto podemos querer acreditar. No último grande relatório da UE sobre violência de género, os números eram assustadores: nos últimos doze meses, pelo menos 3,7 milhões de mulheres tinham sido agredidas sexualmente. E nas 42 mil entrevistas feitas a mulheres dos vários países membros da UE, uma em cada três tinha sofrido algum tipo de abuso sexual desde os 15 anos.

A mim dá-me que pensar. E a vocês?