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Expresso

A vida de saltos altos

Brad Pitt, Angelina Jolie e o Papa Francisco

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Reuters

Não sou dada a seguir religiões, nem muito menos a ouvir discursos vindos do Vaticano. Mas ontem ao ouvir na rádio umas das frases ditas pelo Papa Francisco não pude deixar de pensar quão pertinentes elas são: “a grande doença do nosso tempo é a indiferença. É um vírus que paralisa, que nos torna inertes e insensíveis”. Uma análise totalmente apropriada, principalmente num dia em que um divórcio entre celebridades suplanta qualquer crise humanitária que rouba a dignidade e a vida a milhares de pessoas.

Ontem foi o dia em que o mundo acordou com relatos indescritíveis de um ataque selvagem a uma coluna de 31 camiões de ajuda humanitária do Crescente Vermelho Sírio e da ONU, perto de Alepo. Vinte pessoas morreram: civis inocentes e trabalhadores humanitários que arriscam a própria vida para prestar apoio a quem não pode fugir aos horrores da guerra. Uma boa parte destes veículos ficaram destruídos e a consequência direta é que centenas de pessoas que tentam sobreviver ao caos de um conflito que se prolonga há tempo demais ficaram privadas dos alimentos, roupas de inverno, medicamentos e demais conteúdos que lhes deveriam ter chegado ontem. Ajuda indispensável à sua sobrevivência.

epa

Um dia depois do cessar-fogo na Síria, este ataque, além de inaceitável, é um ato de desrespeito claro ao direito internacional e um golpe potencialmente fatal à entrada futura de ajuda humanitária no país. É grave, muito grave. Mas ontem houve algo aparentemente mais importante do que todo este terror: o divórcio de Angelina Jolie e Brad Pitt.

O fim de 12 anos de relação vale mais do que 5 anos de guerra

Seria hipócrita dizer que o clique numa notícia do género não é fácil e estaria a mentir se dissesse que eu não o fiz quando li o título. É o tipo de conteúdo de descompressão, fácil, imediato e que mexe com o lado voyeurista que praticamente toda a gente tem. Com a curiosidade pela vida alheia, pelos amores e desamores das celebridades que nos enchem os olhos e nos fazem desligar o cérebro dos problemas do mundo, nem que seja durante um pequeno período de tempo. É normal que se clique. O que não me parece normal é que jornais de todo o mundo usem tal notícia como um headline de primeira página, como notícia que merece um alerta de “breaking news” espalhado nas redes sociais como um rastilho ou que depois de se dar a novidade óbvia, ainda se perca tempo a produzir conteúdos – não lhes chamemos notícias, por favor - mirabolantes sobre a relação amorosa de dois atores.

Ora se partilharam as listas dos dez melhores momentos da dupla Brangelina, ora se foram recuperar todos os rumores anteriores sobre os motivos da separação do casal, ora se foi recapitular as antigas relações dos envolvidos, ora se entrevistaram especialistas sobre separações e custódias de crianças adotadas, ora se fizeram apanhados dos melhores gifs animados sobre o casal. Em bom português, fez-se render o peixe. O tal peixe fácil, de consumo rápido e que, parafraseando o Papa Francisco, “paralisa, nos torna inertes”. Quanto à Síria, aos trabalhadores humanitários que foram alvo de um ataque como o de ontem e aos milhares de pessoas que ficaram sem comida, roupa e medicamentos, tornaram-se notícia de segunda.

O lado mediático e a curiosidade natural que as celebridades suscitam é, de vez em quando, usado de forma filantrópica e Angelina Jolie até tem sido bom exemplo disso. Mas não deixa de ser irónico que quando recentemente Jolie esteve na fronteira com a Síria, a visitar um campo de refugiados e a fazer um apelo duríssimo à necessidade de ação internacional concreta e eficaz, isso não tenha sido alvo de uma cobertura tão mediática quanto foi o dia em que saiu um comunicado sobre o seu divórcio. Mesmo na altura, foram mais os comentários aos seus mamilos, aparentemente ‘demasiado’ visíveis por baixo do vestido que usou enquanto enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, do que à mensagem que tentou passar.

Essa mensagem não foi manchete de jornal, nem muito menos se fizeram múltiplos conteúdos derivados da situação para a qual Jolie tencionava virar a atenção do mundo. Aparentemente, tanto para leitores como para quem escreve as notícias que estes leem, cinco anos de conflito, 470 mil mortos e mais de cinco milhões de refugiados não são números tão apetecíveis quanto os 12 anos de um casamento que, simplesmente, acabou. Todos os dias há exemplos destes, mas ontem conseguiu ser chocante.

“A grande doença do nosso tempo é a indiferença”, dizia também ontem o Papa Francisco. Tão, tão verdade.