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Expresso

“Tinha preguiça da palavra feminismo, hoje escrevo-a na testa”

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Escreve com frases curtas, mas as mensagens que passa nos seus textos raramente são pequenas. Admite sentir “um certo prazerzinho na briga”, mas não esconde que depois chora muito e que fica arrasada. Apresenta um programa que se chama “Saia Justa”, mas confessa que gosta de usar calças clássicas e sapatos Oxford. Aponta o dedo a questões fraturantes do seu país de forma quase impulsiva, mas só se apercebe do impacto das suas palavras quando a abordam na rua a chorar e lhe agradecem. Tem um lado “muito masculino da falta de medo”, de se “achar capaz”, mas por outro lado tem também “aquele lado cliché feminino de ser frágil e muito fútil”. Não vive sem o seu smartphone, mas odeia a dependência nas tecnologias. Luta por uma mensagem da igualdade e tolerância, mas admite que tem pensamentos e atitudes sexistas. Substituiu o pão pela tapioca para manter a linha, mas não resiste a devorar um bacalhau à Brás enquanto conversamos sobre os desafios de se ser mulher. Há quem possa achar que Maria Ribeiro é uma pessoa contraditória. Para mim, é apenas uma mulher honesta, que não tem medo de mostrar ao mundo uma verdade comum a todos nós: ninguém é perfeito, por mais correto ou idealista que seja o seu discurso.

Atriz, apresentadora de tv, cronista, documentarista, mãe, esposa, filha, amiga. Mulher. “Trinta e Oito e Meio” é o nome do livro lançado agora em Portugal pela Tinta da China, onde Maria Ribeiro consegue reunir em pequenas crónicas todos estes lados da sua vida. Num registo quase confessional, como se tivéssemos acesso ao diário de uma mulher, entre os 30 e os 40 anos, que observa, reflete, vive e, tantas vezes, se deixa levar pela bola de neve complexa que pode ser viver no Brasil - e no mundo! - nos tempos de hoje.

Escusado será dizer que já conhecia a Maria da televisão e do cinema (quem viu o filme “Tropa de Elite” não esquece a sua cara, certamente). Mas a Maria Ribeiro, mulher que pensa e opina, essa só conheci há uns meses quando me cruzei com uma das suas crónicas. Uma crónica onde escrevia uma carta a Fernanda Torres, quando esta estava praticamente a ser colocada na fogueira por milhares de mulheres brasileiras, por um simples comentário irrefletido e que não revela mais do que um choque geracional. Lembro-me de ter olhado para as suas palavras, para a clareza do seu raciocínio, simples e descomplexado, e de ter pensado: “Ora aqui está uma mulher que reflete antes de abrir a boca para fazer julgamentos”. Escusado será dizer que a partir daí comecei a seguir o seu trabalho publicado no jornal Globo e na revista TPM.

Cara a cara só nos conhecemos na semana passada, numa conversa que durou mais do que prevíamos. E as palavras que ela escreve não destoam da realidade: Maria é mesmo uma mulher sem papas na língua. Que tanta arregala muito os olhos e carrega o semblante, indignada, quando ouve uma história horrível - como a da adolescente humilhada em tribunal após ter sido violada – como abre um sorriso fútil para me dizer “seus brincos são foda” no fim da conversa. E não tem mal que na mesma conversa se fale de coisas tão díspares. Não há qualquer desprimor nisso, a vida é assim mesmo.

“Ainda é preciso brigar por coisas básicas, o que é uma pena”

Muitas vezes falo aqui sobre o Brasil e ods seus enormes desafios em termos de igualdade de género. Com isso em mente, brinco com o facto de lhe apontarem frequentemente o dedo por ser demasiado assertiva, polémica e provocadora no seu discurso. “É... se fosse homem talvez já não dissessem o mesmo”, responde-me entre duas garfadas de bacalhau. E a conversa desenrola-se facilmente, porque no que toca à dimensão da cultura machista no Brasil há realmente muito para dizer: “Ainda é preciso brigar por coisas básicas, o que é uma pena. Tenho horror a sexismo, a violência, a estereótipos. Fico louca quando, por exemplo, o meu filho de seis anos chega da escola e diz que rosa é para menina e azul para menino. Mas o sexismo não vive só destas subtilezas. Tem noção de quantas mulheres ainda apanha dos maridos e dos números inacreditáveis de estupro?”, pergunta-me Maria, sem conseguir evitar levar as mão à cabeça. “Talvez a gente não seja mais o país do jeitinho e da cordialidade e nos últimos anos temos visto quão racista e machista o Brasil ainda é. Há um lado muito feio e a Internet é um grande palco dessa realidade. Já não tem como jogar para baixo do tapete, está na cara, todo o mundo pode ver. Aqui é igual?” . É.

Não esconde a responsabilidade que sente por levar de temas às massas. “Saiu uma pesquisa recentemente de mostra que as mulheres trabalham em casa mais cinco vezes do que os homens. A gente conquistou muita coisa, mas mantém a casa e a criança. Está a mudar, mas o cobertor continua mais curto para nós. No meu caso, quero ser uma super mãe e continuar a aceitar todo o trabalho, mas é uma escolha minha. Para a mim é muito fácil ser uma mulher de 40 no Brasil. Difícil é para a moça que trabalha em minha casa e que não tem escolha. Que demora duas horas para chegar e voltar de transportes. Que quando precisa de saúde, a saúde pública não atende. Que quer pôr o filho na escola e não tem matrícula e quando tem os professores são péssimos porque são mal pagos. Ser mulher comum no Brasil hoje é dificílimo. A maioria dos lares são chefiados por mulheres e o índice de homens que abandonam os filhos ainda antes de nascerem é imenso. Quem tem voz, quem escreve em jornais tem de falar disto. Eu costumava ter preguiça da palavra feminismo, hoje escrevo-a na testa.”

“As mulheres também são muito sexistas, eu não sou exceção”

Defende a legalização do aborto com unhas de dentes – “morrem milhões de mulheres por causa do aborto porque não é legalizado. As mulheres ricas fazem, não é uma questão religiosa, é financeira” – e condena, com irritação latente, a subversão do feminismo. “Fico impressionada com o prazer de algumas mulheres em detonar os homens. Não é querer ser mais ou melhor, e temos de parar para pensar quando isso já não é bem assim”. Mas não pretende passar a imagem do ser pensante perfeito, que nunca comete erros.

“Tenho preconceito com mulher que não trabalha, e fico puta comigo mesma. Por que hei de ter esse preconceito? Talvez a gente possa chegar a um dia em que essa escolha não faça mal a outras mulheres, em que seja só uma escolha. Mas eu olho para a mulher do Temer, por exemplo, e vejo um desserviço imenso. Embora seja feminista, pela liberdade de escolha, a igualdade, isso ainda me incomoda”. Maria não o diz com orgulho, mas não tem vergonha de o admitir. E o que diz a seguir esclarece qualquer ideia errada que possa resultar destas suas palavras. Palavras que, lá está, a podiam colocar na tal fogueira. “As mulheres também são muito sexistas e eu não sou exceção. É muito fácil apontar o dedo ao outro, mas se eu vir uma amiga que me diz que tem o marido em casa a tomar conta das crianças, num mundo ideal eu diria ‘que lindo’. Mas no meu íntimo eu hoje ainda sinto ‘que horror, um homem a tomar conta das crianças?’. A verdade é que eu ainda sinto isso, mas eu quero melhorar, tenho consciência de que é preciso melhorar. Se eu disser isso vou ser apedrejada, ninguém vai parar para refletir no que está por trás. Que eu fui criada assim, que nasci no Brasil, que sou filha da minha mãe, que sou feita de tudo isto. E eu quero ir contra isto, mas é preciso primeiro admitir para poder mudar. É um caminho de crescimento, não é de um dia para o outro.”

Num mundo cada vez mais irrefletido e tão rápido nos julgamentos ao próximo, esta honestidade, tão nua e crua, consegue ser muito refrescante. Obrigada, Maria.