Siga-nos

Perfil

Expresso

A lingerie sexy não é só para gente magra

  • 333

“Qual é a piada de uma gaja obesa?”. “Não é sexy, é nojento”. “Mas alguém quer ver isto em lingerie?”. Estes foram alguns dos comentários mais idiotas que li em resposta a outro dos momentos altos desta Semana da Moda de Nova Iorque: a participação de Ashley Graham com a sua fabulosa linha de lingerie para mulheres que vestem a partir do número do 42.

Se ao olharem para mulheres como Ashley, que do alto das suas coxas possantes, peito volumoso e olhar que transpira autoconfiança só lhes ocorre dizerem barbaridades como as que servem de arranque a este texto, não me admira realmente que haja por aí tantas mulheres e miúdas com vergonha dos próprios corpos. A esconde-los debaixo de roupas largas, como se mostrar os contornos de um rabo volumoso fosse um crime nacional. A terem vergonha de usar um biquíni, não vá alguém apontar o dedo àquele refego que teima em localizar-se na cintura por mais saladas que se coma. A taparem-se dos pés à cabeça nos balneários do ginásios, como se a sua imagem corporal pudesse suscitar o olhar reprovador de alguém. A acharem que não há nada como o inverno, para que as camisolas escondam a gordurinha dos braços e das coxas mais maciças. As mesmas que estes senhores aparentemente consideram nojentas. Lingerie? Meu deus, um corpo acima do 42 aparentemente não é digno dela. Os estereótipos de beleza, sob os quais as mulheres dos tempos de hoje vivem escravizadas, assim o dizem sem pudor há décadas. Na televisão, no cinema, nas revistas, nos catálogos de moda, na publicidade e – pasme-se - até mesmo nos desenhos animados.

Posto isto, é muito refrescante ver que a própria indústria da moda começa a perceber a necessidade urgente de quebrar estes mesmos estereótipos. E a aceitar nas suas mais importantes passarelas mulheres que extrapolam a rigidez das medidas corporais supostamente perfeitas. Ashley Graham, 29 anos, mais uma vez surge como embaixadora deste elogio à diversidade.

Profissional da indústria plus size com uma carreira invejável, Ashley já fez campanhas para marcas como Levi’s, Calvin Klein e Marina Rinaldi, além de ter sido fotografada para revistas como a Elle UK, a Vogue ou a Harper’s Bazaar. Não só é uma empreendedora por excelência, como é também uma ativista ferrenha na luta contra o ‘body shaming’ (espreitem a sua interessante participação nas TED Talks, intitulada “Plus Size? More Like my Size!”) e um símbolo de aceitação para mulheres de todo o mundo. Como é que o consegue? Tendo como eterno lema a seguinte frase: “A autoconfiança é algo muito sexy”.

No seu Instagram, Ashley Graham deixou clara a sua intenção com este desfile: “Estou tão orgulhosa do quão longe a minha linha de lingerie para a Addition Elle conseguiu chegar! Mostrá-la pelo segundo ano consecutivo na Semana da Moda de Nova Iorque é um sonho tornado realidade! Para qualquer menina ou mulher que alguma vez sentiu que não estava a ser representada pela moda, televisão ou pelos media por causa do seu tamanho, agora estão e vão estar para sempre!”. Finalmente. E que o exemplo se vá repetindo.

A linha de lingerie que criou para a Addition Elle e que foi apresentada em Nova Iorque é linda. Elegante, sensual e, sim, grande. Mas é isso que a torna mais ou menos sexy? Não me parece. Recorrendo às palavras que Ashley Graham usou para a descrever, esta linha de lingerie é “uma forma de celebrar as mulheres”. E a verdade é que uma larguíssima percentagem das mulheres deste planeta aproxima-se mais dos 96-96-116 de Graham do que dos famigerados 86-60-86. Ao contrário do que o senhor responsável pela primeira frase do texto acha – e que pelo que tenho lido é uma opinião partilhada por muita gente – elogiar corpos volumosos e curvilíneos não é fazer um elogio à obesidade (se calhar também está na altura de começar a perceber a diferença entre excesso de peso e obesidade), nem muitos menos um apelo a uma saúde desleixada. Que não se confunda nem se deturpe a mensagem. É sim um elogio à diversidade e à aceitação corporal, seja ela qual for. Porque não há nada mais ambíguo do que isto da beleza.

Instagram