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Expresso

O discurso de Angelina Jolie que o mundo deve parar para ouvir

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A atriz Angelina Jolie (à direita), conversa com crianças refugiadas sírias junto ao campo de refugiados junto à cidade de Al Azraq, na Jordânia

reuters

Já há cerca de ano e meio escrevi isto por aqui, aquando de um debate no Conselho de Segurança das Nações Unidas: ainda bem que existem pessoas com o calibre de Angelina Jolie. E não falo das suas fabulosas qualidades enquanto atriz, realizadora, produtora ou guionista, nem tampouco dos seus lábios carnudos e pernas esguias que são dados como exemplo máximo da sensualidade. Falo, sim, da mulher que tem a inteligência de usar o seu mediatismo para um bem maior: dar voz a quem ficou esquecido ou foi simplesmente transformado num número.

Angelina Jolie voltou a meter o dedo na ferida durante mais uma visita a um campo de refugiados sírios, onde fez novamente um discurso que deve mesmo ser ouvido. Em Azraq, na Jordânia, onde mais de 60 mil pessoas continuam à espera de um dia poderem retomar as suas vidas, a enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados deixou claro: "A lacuna entre nossas responsabilidades e nossas ações nunca foi tão ampla".

Relembrou que há ali crianças a viver “que não conhecem outra realidade a não ser tal ambiente hostil, deserto e rodeado e de arame farpado”. Jolie fez questão de relembrar também que mais de metade daqueles refugiados têm menos de 18 anos e que grande parte deles são “adolescentes que carregam consigo feridas físicas e mentais terríveis causadas por este conflito”. “Os meus próprios filhos têm estas idades e, como qualquer mãe, não consigo imaginar o que seria ter de os ver a passar por uma situação como esta. Parte-me o coração.”

Durante o seu discurso oficial, Angelina Jolie lamentou que o Conselho de Segurança da ONU não tenha alcançado um acordo para pôr fim à guerra civil na Síria, que explodiu em 2011. E voltou a apelar que na próxima Assembleia Geral da ONU os líderes mundiais finalmente ponham no centro da discussão “as causas fundamentais do conflito na Síria e o que vai demorar para acabar com elas”. “Os refugiados não querem ser beneficiários passivos de ajuda, eles querem soluções políticas. Basicamente, eles querem saber quando é que podem regressar a casa.”

Já em abril do ano passado Angelina Jolie tinha sido peremptória. “Fracassámos”, disse a ativista num debate no Conselho de Segurança das Nações Unidas. "O problema não é a falta de informação, é a falta de vontade política”. O trabalho de Angelina Jolie com refugiados não é novidade, tal como a sua capacidade de elegantemente meter o dedo bem fundo nas feridas que muitos tentam esconder com palavras mansas. "São quatro milhões de refugiados sírios que são estigmatizados, rejeitados, e vistos como um fardo. As leis humanitárias internacionais proíbem a tortura, a fome, e que escolas e hospitais se tornem alvos, mas estes crimes acontecem todos os dias na Síria", ressalvou.

No meio de tudo isto, ainda há quemperca tempo a acusar Angelina Jolie de só querer mediatismo. Enfim, não é preciso ser muito inteligente para perceber que isto é apenas uma questão de filantropia, algo que é, no mínimo, louvável. Por outro lado, há ainda quem se tenha dado ao trabalho de escrever notícias sobre o facto de Angelina ter deixado “o sutiã em casa na sua mais recente aventura filantrópica”. Ou seja, os mamilos de Angelina Jolie, que supostamente estavam “demasiado visíveis” debaixo do vestido preto comprido que usou nesta visita, são mais graves do que as suas palavras de alerta para o terror vivido por aqueles refugiados. Haja paciência para tanta inversão do que realmente interessa.

E o que realmente interessa é a vida daquelas pessoas que há cinco anos sobrevivem ao terror deste conflito. Os números do drama sírio - que o Expresso tão bem retratou neste texto – têm mesmo de ser relembrados até à exaustão, por mais que todo este drama aconteça lá longe: em cinco anos de uma guerra que parece não ter fim, 470 mil pessoas já perderam a vida. E cinco milhões (entenda-se, quase metade da população portuguesa) vive em campos de refugiados.