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Expresso

Uma sobrevivente de ataque com ácido na semana da moda? Sim, sim!

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Tem 19 anos, é fã da atriz Katrina Kaif, gosta de tirar selfies com as amigas e adora, particularmente, usar baton cor de rosa. Aliás, através do YouTube até já partilhou um vídeo seu onde mostra passo a passo como fazer a maquilhagem perfeita, sem esquecer, é claro, o pormenor dos lábios bem desenhados.

Reshma Qureshi é uma adolescente indiana como tantas outras e embora tenha a cara totalmente desfigurada não aceita que a rotulem como “uma coitadinha”. Ao contrário de tantas outras mulheres, sobreviveu ao ataque com ácido sulfúrico que lhe roubou a expressão facial e, portanto, considera que “continuarem a usar a palavra vítima não faz sentido”. Pelo contrário, sente-se “cada vez mais bonita” e foi com essa postura confiante que este fim de semana desfilou na Semana da Moda de Nova Iorque. Provavelmente, o momento que vai marcar esta edição do evento.

Reshma tinha 17 anos quando um grupo de três homens, entre eles o cunhado, a atacou numa estação de comboio. O alvo real do ataque seria a sua irmã, mas confundiram-na e foi Reshma que acabou por levar com aquele químico na cara, que se foi desfazendo até se transformar numa gigante cicatriz. Até hoje, nenhum dos três homens foi punido.

Não há palavras que possam explicar o impacto que tamanho crime – tão comuns em países como a Índia, onde tudo aconteceu – teve na vida desta adolescente. Passou tantas vezes pela mão de cirurgiões que passou a tratar as paredes do hospital por tu. Entrou em depressão profunda. Pensou em suicídio mais do que uma vez. Isolou-se do mundo, incluindo da família e amigos. Até que se cruzou com Ria Sharma, a fundadora da ONG Make Love Not Scars, que se dedica a apoiar sobreviventes de ataques com ácido sulfúrico, e a tentar alertar a opinião pública para os perigos da venda e uso deste produto.

Ali, Reshma recebeu apoio psicológico, apoio jurídico e, acima de tudo, criou um laço emocional e de confiança com a equipa daquela ONG, fatores essenciais para recuperar a sua autoestima e vontade de viver. Hoje é conhecida por dar a cara a uma série de vídeos tutoriais, onde partilha dicas de beleza com mulheres em geral, desde a aplicação de eyeliner ao risco de batom perfeito. O facto de ter a cara desfigurada é apenas um pormenor que, obviamente, não tem de entrar na equação quando se fala de beleza. Mas para aqueles que se questionam o que lhe terá acontecido, no fim de cada vídeo Reshma aproveita para dar a conhecer alguns dados sobre os ataques com ácido sulfúrico no seu país. E ainda partilha o link para uma petição que tem o intuito de aumentar as restrições à venda de ácidos na Índia.

Quão simbólica é esta participação na Semana da Moda de Nova Iorque?

Se pensarmos que os ataques deste género são, regra geral, uma forma de vingança à tomada de decisão de uma mulher, e perpetuados com o intuito de lhes destruir qualquer oportunidade de uma vida normal, a participação de Reshma em Nova Iorque é altamente simbólica. É gritar ao mundo que não é um ataque do género que vai obrigatoriamente condenar a vida das suas vítimas. É mais uma forma de encorajar as sobreviventes a retomarem os seus caminhos e a acreditarem que as suas caras podem ter ficado desfiguradas mas a vida ainda não acabou. E que nada é impossível. Afinal, Reshma foi parar às passarelas da maior semana da moda do mundo, não foi?

Convém relembrar: a maioria das vítimas de ataques com ácido sulfúrico tem entre os 13 e os 35 anos e as motivações passam quase sempre por supostos crimes de honra: homens despeitados por ciúmes, pedidos de divórcio ou rejeições a pedidos de casamento estão no topo da lista, como forma de subjugação mulher através da destruição da sua beleza. Mas também há casos de vinganças por partilhas de terras – mesmo que as mulheres não tenham nada a ver com isso são elas as atacadas – ou reclamações de dotes. Um ataque com ácido sugere sempre a perda da beleza, da feminilidade. Consequentemente, a suposta perda da oportunidade de viver um grande amor, de constituir família, de poder ter uma vida laboral ativa, de poder desfrutar de vida social. O isolamento como castigo supremo para o facto da mulher em causa ter tido voz própria na hora de decidir o rumo da sua vida.

Todos os anos existem centenas de ataques com ácido sulfúrico na Índia, ainda que em 2013 uma ordem do Supremo Tribunal do país tenha proibido o mercado aberto de ácido, implementando maiores restrições aos distribuidores. Contudo, continua a ser demasiado fácil comprá-lo. O mesmo acontece em tantos outros países onde esta prática ainda é comum: embora a Organização Mundial de Saúde ainda não tenha dados globais disponíveis sobre a sua dimensão, sabe-se que são mais comuns em países como Bangladesh, Afeganistão, Camboja, China, Jamaica, Nepal, Nigéria, Paquistão, África do Sul e Uganda.

No que toca a estes ataques, não foi só o desfile de Reshma que fez história nos últimos dias. Enquanto esta desfilava em Nova Iorque, um homem era condenado à morte em Bombaim por ter assassinado uma mulher – que recusara um pedido de casamento – num ataque do género. Sinais de mudança?