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Expresso

“Eu mostro as minhas mamas quando me apetecer”

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Uma comediante famosa entra em palco para um espetáculo de stand up comedy, aguardado durante semanas por vários milhares de pessoas que finalmente tinham a oportunidade de receber a artista no seu país. Elegante, irónica, corrosiva e, tantas vezes, desconcertante, Amy Schumer é irrepreensível quando toca ao profissionalismo com que lidera cada uma das suas apresentações em público. E é em boa parte isso que a torna a estrela de renome que é atualmente. Posto isto, parece-me, a única coisa que se pede em troca é o respeito de quem está assistir. E definitivamente interromper um espetáculo para se gritar uma frase como “mostra-nos as mamas” não faz parte desse respeito esperado.

Foi isto que aconteceu na semana passada, em Estocolmo, durante um dos últimos espetáculos da sua tournée pela europa. Pouco mais de dois minutos depois de ter entrado em palco, Amy Schumer foi interrompida pela frase “mostra-nos as mamas”. Gritada por um homem que envergava uma t-shirt com a frase “I love pussies”, e que aparentemente estava a achar delirante o seu próprio comportamento. Como se o facto de aquele ser um espetáculo que prima pelo humor e pela ironia, lhe desse abertura para fazer um comentário do género. E o facto de ela ser mulher, permitisse a automática sexualização do seu corpo. Pela expressão que fez ao ser interpelado pela artista, que se lhe dirigiu diretamente numa curta conversa, o homem nitidamente achou que a laracha ia ser recebida com empatia. Que, provavelmente, a artista se iria rir de tal “disparate” e que até embarcaria nele. Mas não foi isso que aconteceu. E ainda bem.

Amy Schumer, que tem um longo historial de momentos em que deixou claro que comportamentos sexistas não são do seu agrado, optou por chamar o homem ao palco. Quando este se recusou, Schumer apelou a que a restante audiência olhasse e apontasse diretamente para ele. Perguntou-lhe o que fazia da vida e, quando a resposta foi “vendas”, aproveitou para ironizar: “Oh, vendas? E como está a correr agora? Está a resultar? A mim parece-me que ninguém está a comprar esse comportamento”. Com o homem agora visivelmente embaraçado e com uma audiência de milhares de pessoas a rir da situação, Schumer deu a sua estocada final: “Foste muito querido, mas se continuares a gritar, vais a acabar a gritar ‘mostra-nos as mamas’ no parque de estacionamento, que é onde irás parar, filho da mãe”.

Insatisfeito com o confronto, o homem decide voltar a interromper mal ela recomeça o espetáculo e Amy Schumer faz aquilo que provavelmente poucos esperavam, chama a segurança e ordena que o homem saia. Em tom de conclusão, deixa claro: “Eu mostro as minhas mamas quando me apetecer”. Pelo meio, pede ao público que concorda com aquela saída que bata palmas e a arena explode num enorme aplauso, que a mim me parece altamente simbólico. Mesmo que para muitos tenha sido inconsciente, este foi um aplauso contra a falta de respeito, contra o sexismo, contra a premissa que leva a que o corpo da mulher seja recorrentemente alvo de piadinhas ofensivas e obscenas, que não podem ser consideradas aceitáveis. Por mais que andemos a lidar com elas há séculos.

Se fosse Jerry Seinfeld, por exemplo, diria algo como “mostra-nos a pila”?

Há quem possa achar que Amy Schumer foi longe demais e que não era preciso expulsar ninguém da sala. Eu acho, sinceramente, que foi exemplar. E que só com atitudes destas é que poderemos começar a perceber que nos cabe a todos chamar à atenção os demais que ainda não entendem quais as fronteiras do respeito. Talvez este tipo até nem seja mau rapaz. Talvez até nem tenha tido intenção de ofender ninguém, julgando que estava só a fazer uma piada que seria aceite com boa-disposição por alguém que até usa o humor cáustico como forma de vida. Mas depois é preciso ir um bocadinho mais além e tentar perceber o que leva alguém a achar que interromper uma artista, para exigir que mostre as mamas ao público, é aceitável.

Primeiro: com tanta laracha possível, era mesmo preciso usar uma que recorre imediatamente à sexualização do corpo feminino? E se quem estivesse em palco fosse um homem, a piadinha teria cariz sexual à mesma? Se fosse um Jerry Seinfeld, por exemplo, diria algo como “mostra-nos a pila”? Isso passar-lhe-ia sequer pela cabeça? Muito provavelmente não. Mas Amy Schumer é uma mulher. “Ainda por cima”, diriam algumas pessoas, uma mulher que já apareceu nua em capas de revista. “Pior que isso”, diriam outros, uma mulher que fala de sexo em público. Uma mulher sem papas na língua. Uma mulher que, muito provavelmente, “até está a pedi-las”. E isso, dizem-nos a experiência, as estatísticas e os inúmeros casos de comportamentos abusivos que chegam a tribunal, torna-a uma pessoa ‘mais dúbia’.

Por outro lado, também fomos habituados ao longo das últimas décadas (bom, séculos) que fazer piadinhas sexistas e sexuais sobre mulheres não é nada que nos deva ofender. “Sempre foi assim, por que é que se hão de chatear agora? É só uma brincadeirinha, estás a exagerar”. Quantas vezes já ouvi frases do género. Mas a verdade é que o facto de ser um comportamento perpetuado ao longo do tempo não o torna correto. E se durante muito tempo o ideal era ouvir e calar para não arranjar problemas, hoje isso mudou. Ou, pelo menos, parece estar a mudar. A atitude de Amy Schumer é apenas um exemplo. Dos bons, que todos deveríamos seguir.