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Expresso

O feminismo não é machismo ao contrário

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‘O feminismo é uma forma de vitimização da mulher’. ‘Feminismo é demagogia barata’. ‘Feminismo é um movimento extremista’. ‘Feminismo é machismo ao contrário’. Durante o meu querido mês de agosto, ouvi inúmeras vezes estas frases quando se falava sobre o facto de o feminismo estar novamente em voga. E todas elas não podiam estar mais erradas. Em plena rentrée d’A Vida de Saltos Altos, talvez faça sentido começar por um género de – permitam-me a brincadeira – revisão da matéria dada.

Imaginemos isto como uma daquelas aulas de último ano de escola primária, em que somos estimulados a procurar palavras no dicionário. Comecemos pelo que me parece mais urgente, a palavra ‘feminismo’. Diz o dicionário que se trata de um “movimento ideológico que preconiza a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem”. Muito bem, parece-me até bastante claro. Mas para que não sobrem dúvidas, se calhar também temos de rever qual o significado da palavra “igualdade”. Mais uma vez, diz o dicionário que se trata de um “princípio de organização social segundo o qual todos os indivíduos devem ter os mesmos direitos, deveres, privilégios e oportunidades”. De acordo com o mesmo dicionário, as palavras vitimização, extremismo e demagogia parecem ter muito pouco a ver com estes dois conceitos. É ou não é fácil de entender?

Na realidade, ainda não é. Não me levem a mal por fazer esta explicação com recurso a dicionário, acredito sinceramente que muitos de vós não precisam de fazer tal busca do significado das palavras para as perceberem. Mas ainda há muito gente que precisa. A discussão eleva-se, tanto entre homens como mulheres, que continuam a bater-se contra uma ideologia que não faz mais do que uma apologia à tal igualdade entre indivíduos. Uma igualdade que, me parece óbvio, nada tem a ver com a negação das diferenças biológicas entre géneros. Só não usem é essas diferenças para justificar qualquer tipo de ideia discriminatória, algo também bastante comum.

“Eu não sou feminista, mas...”

Desde a ressalva subtil da frase “eu não sou feminista, mas...” à forma como se enche a boca para se dizer que “feministas são mulheres que odeiam os homens”, o machismo ainda é perpetuado diariamente, mesmo em sociedades que se dizem evoluídas. É um comportamento exclusivo ao homem? Não, nem pensar. Existem tantas, mas tantas mulheres altamente machistas (e muitas delas nem percebem que o são, mas isso é reflexão para outro texto). E ainda há as que se consideram feministas, mas que depois resvalam para um comportamento altamente sexista. Ou seja - também convém lembrar, é tão errado um homem dizer algo como “o lugar delas é em casa a tratarem dos filhos porque são mulheres”, como uma mulher dizer, por exemplo, que “os homens não têm direito a falar sobre feminismo porque são homens”. O comportamento inerente ao sexismo existe dos dois lados, já no que toca ao machismo e feminismo, a diferença entre os dois conceitos não podia ser mais díspar.

O machismo é um comportamento e ideologia que ainda considera a mulher inferior ao homem, seja em termos de direitos, oportunidades, capacidades e, até mesmo, dignidade. E, por tudo isto, subordinada ao homem. Um comportamento perpetuado há longos séculos por pessoas no geral, mas, inegavelmente, com uma prevalência gigante no sexo masculino, temos de admitir. O feminismo, por seu lado, não considera o sexo masculino inferior, nem muito menos supõem opressão de um dos géneros, nem a subordinação dos homens às mulheres.

Entre outras, o feminismo defende a paridade no que toca aos tais direitos, oportunidades e reconhecimento de capacidades e dignidade. Não é um concurso, nem muito menos uma batalha com vencedores e vencidos. Não é, nem nunca deve ser, uma apologia à supremacia feminina em detrimento do mundo masculino. Não é odiar os homens. É simplesmente apelar ao equilíbrio. E quando todos percebermos que viver numa sociedade mais par e equilibrada só nos traz vantagens a todos, então talvez palavras como feminismo e machismo deixem de fazer sentido. Chamem-me utópica, mas eu ainda acredito que dia lá chegaremos.

Foi graças a algumas pessoas que ao longo da história da humanidade perceberam que a mudança era necessária – como Maria Isabel Barreno, que faleceu este fim de semana – que o mundo e, particularmente, os direitos das mulheres evoluíram. E que hoje estamos onde estamos, a gozar da tal igualdade absoluta de direitos para homens e mulheres, sem nunca pararmos muito para pensar que nem sempre isto foi assim. Pessoas, maioritariamente mulheres, que perceberam as diferenças entre estas duas palavras e que abraçaram o feminismo, conscientes da sua importância. Para todos nós.