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Expresso

Vale tudo: assédio, agressões verbais e ameaças de morte aos filhos

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Jessica Valenti

Meio mundo discute atualmente a corrida à Casa Branca, mas em vésperas de fechar a A Vida de Saltos Altos para férias durante o mês de agosto, o nome que hoje quero que vos fique na memória não é o de Hillary Clinton. É sim o da escritora Jessica Valenti.

Pioneira na discussão sobre o feminismo dentro das mulheres da sua geração, dedica-se a abordar a discriminação de género há já vários anos, mesmo quando o tema ainda não fazia parte da agenda política de ninguém. Criou um site onde deu voz às angústias de jovens mulheres do mundo inteiro, publicou quatro livros dedicados aos desafios das mulheres dos tempos de hoje, é colunista do The Guardian (onde mete o dedo na ferida semanalmente) e foi considerada uma das 100 Mulheres mais Inspiradoras do Mundo. Para muitos o seu trabalho merece ser aplaudido de pé, mas para outros é simplesmente inconveniente. E se as constantes ameaças e ofensas que recebia não a demoviam de o continuar a fazer, houve uma que teve o condão de a pôr com vontade de cruzar os braços e desistir: uma ameaça de morte à sua filha de cinco anos.

Basta olhar para os últimos séculos de história mundial: quando a voz de uma mulher se torna incómoda, a violência é, invariavelmente, a forma escolhida para a calar. De forma mais ou menos subtil, era assim há cem anos e é assim nos tempos de hoje. Uma mulher que fale e critique abertamente questões como a discriminação ou a violência contra o sexo feminino (que continua a ter números astronómicos no tempos de hoje) gera controvérsia. O tema é, lá está, incómodo: todos nós sabemos que é verdade, mas custa a admitir que em sociedades supostamente de primeiro mundo isto ainda tenha muita vezes contornos de época medieval. Quando olhamos para o universo online – que, infelizmente, Jessica Valenti conhece demasiado bem – está tudo lá: as agressões verbais, as ameaças e o assédio constante. Que raramente se materializam, mas que permanecem como uma sombra, num universo onde as malhas da lei ainda deixam impunes os agressores. Uma prova da necessidade de controlo pela via da agressão que ainda existe amiúde nos tempos de hoje quando a mulher deixa ao seu papel submisso.

Receber um ameaça dirigida a um filho, como resposta a um artigo de opinião, é tão grave que nem sei por onde começar. Neste caso, um dos exemplo máximos da demonstração de superioridade através do exercício do medo. E nisso, os homens – e sim, aqui tenho mesmo de dizer “os homens” - têm sido exímios aos longo da história mundial. Tragicamente, a evolução da figura feminina na nossa sociedade e o crescimento da presença de mulheres em posições de poder parece desencadear a misoginia em vez de controlá-la. Como se fosse um afronta.

“É preciso pôr Theresa May na linha”

Basta olhar para o recente exemplo, tão subtil, mas ao mesmo tempo tão revelador, do que foi dito sobre Theresa May por Owen Smith esta semana. Num discurso público, disse sem pudor que não sabia como é que o Partido Trabalhista não tinha tido a capacidade de “smash her back on her heels” (em tradução livre, qualquer coisa como “pô-la na linha”). Se Theresa May fosse um homem, muito provavelmente este comentário nunca teria sido feito. Mas no inconsciente coletivo do mundo ocidental, pôr uma mulher na ordem ainda faz sentido. Foi isso que os homens, com a sua posição de poder, fizeram ao longo dos últimos séculos. E é isso que o leitores que discordam de Jessica Valenti certamente pretendem fazer ao ameaça-la com agressões como aquelas que recebe no seu email.

Claro que Owen Smith já veio desculpar-se, dizendo que foi só uma expressão infeliz. Se não fosse uma figura política que tem realmente de ter muito cuidado com o que diz publicamente, certamente sem pediria desculpa, ficando-se por um simples: “Mas onde é que anda o teu sentido de humor?”. Vamos entender-nos de uma vez por todas: não há sentido de humor na misoginia. Não é uma brincadeira, pelo contrário, deve ser levada bem a sério. É perigosa, tende para ser violenta e alastra-se como rastilho, promovendo sociedades menos pares e equilibradas. E ninguém tem a ganhar com isso.

Muitas vezes me dizem que já não há paciência para a esta atual vitimização das mulheres porque tanto homens como mulheres são vítimas de abusos. É óbvio que sim, há abusos dos dois lados. Mas falar de direitos humanos no geral seria, no mínimo, hipócrita. Se o feminismo continua a ser necessário nos tempos de hoje, é porque ainda há uma forma de discriminação latente e bem específica no que toca às mulheres. E não estamos a falar apenas das realidades de países como Arábia Saudita ou Afeganistão – que também sempre os países que me dão como exemplos - estamos a falar também de países como Portugal, Inglaterra ou Estados Unidos (pensem n atitude de Trump em relação às mulheres, aplaudida de pé por milhões de pessoas). Se quiserem estatísticas, basta olhar para dados como os da violência doméstica, dos abusos e assédio sexual, das discrepâncias salariais por géneros ou do acesso feminino a cargos de poder, seja na política ou na administração de empresas. Não é preciso ser muito inteligente ou ter uma elevada capacidade de análise. Todos estes dados são públicos, basta querer vê-los.

Mas a maioria das pessoas – homens e mulheres - não os quer ver. Prefere refugiar-se em respostas vazias, que só acentuam estereótipos, e dizer barbaridades como “mas o que é que as mulheres querem mais?”. Como se o facto de hoje dia já podermos votar ou de já não precisarmos da autorização do marido ou do pai para viajar e abrir conta no banco (já agora, conquistas que não fazem parte de um passado assim tão longínquo) fosse digno de piruetas e confettis. Não é.

Até setembro!