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Expresso

Vamos mesmo deixar esta Avó ficar sem casa?

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Na verdade, não é só uma avó que está em causa, são mais de 70. Oitenta séniores que encontraram no projeto A Avó Veio Trabalhar não só um antídoto para a solidão, mas também a possibilidade de darem largas à criatividade perdida, partilharem as suas experiências de vida e sentirem-se motivadas diariamente para uma vida mais desafiante a autónoma. Como? Através de artes como a costura, crochet, serigrafia ou tear. Guiadas por uma dupla de “netos” emprestados – ele psicólogo, ela designer – dão vida a coleções de acessórios de moda e artigos decorativos feitos à mão, posteriormente apresentados ao público com honras de festa de lançamento oficial na presença de estilistas, fotógrafos e designers. No catálogo de cada coleção, são também elas as modelos que dão a cara nas fotografias e cada peça vem identificada com a “avó que a fez”.

Há uns tempos tive o enorme prazer de passar umas horas no atelier e loja deste inspirador projeto, na Rua do Poço dos Negros, em Lisboa, que infelizmente está em risco de ficar sem casa. O lema, colado nas paredes em tom bem-humorado, é claro: “Old is the new young!”. Na altura, os fundadores, Ângelo Campota e Susana António, deixaram-me claro que, embora ninguém pague para lá passar o seu tempo livre, a génese da ideia não era serem um centro de dia, nem muito menos fazerem caridade. Como base de tudo está a grandeza da palavra “dignidade”, logo seguida pelo poder da partilha enquanto forma de inovação social. Reavivam-lhes competências, incentivam-nas a processos de coautoria no design, investem em materiais de qualidade, valorizam o packaging de cada peça feita à mão e dão palco às artesãs quando é altura de apresentar as coleções ao público. “É importante dignificar o seu trabalho, desafiá-las em vez de as reduzir, dar-lhes autoconfiança e retirá-las do estado meio adormecido em que muitas vezes estão”, resumem.

Se há cerca de dois anos, quando tudo começou, eram apenas 12 “avós”, hoje são mais de 70. A regra de adesão era terem mais de 60 anos, mas pelo atelier passam pessoas entre os 57 e os 98 anos, incluindo também alguns “avôs” que já vão demonstrando vontade de fazer parte da equipa. Algumas trabalham em casa, mas é na loja/atelier que a maioria gosta de passar o seu tempo, totalmente empenhadas em completar os objetivos de cada coleção. À volta de uma enorme mesa de madeira, por dia chegam a passar por lá mais de trinta avós.

A idade não tem de ser um limite para os sonhos

Uma das sessões fotográficas com as avós

Uma das sessões fotográficas com as avós

FOTO ALÍPIO PADILHA

O facto de serem produtos feitos à mão, com carinho, paciência e tempo, leva a que rentabilidade das vendas não seja elevada, mas mesmo assim a dupla de fundadores vai esticando o orçamento de forma a poder levar as avós a ver novos mundos. Já foram ao cinema, passar fins de semana fora, ver exposições, conhecer outros artesãos e, inclusive, participaram no Arraial Pride, onde muitas desmistificaram ideias ultrapassadas sobre homossexualidade. Volta não volta, são também elas as professoras de workshops de costura, uma forma de lhes dar autonomia e autoconfiança. Atividades que para muitas destas pessoas eram possibilidades longínquas, de uma outra vida que supostamente já não condizia com a sua condição de terceira idade. Agitam-se mentes, tiram-se dúvidas, debatem-se ideias, alimentam-se sonhos. A idade não é de todo um limite nesta casa.

Para que tudo isto seja possível, Ângelo e Susana desdobram-se nos papéis que desempenham na vida destas dezenas de pessoas. Já não são só psicólogo ou designer, são também professores, vendedores, mediadores de conflitos, netos e amigos. Sonham alto quando tocar a dignificar as “avós” e neste momento não só já têm até um ponto de venda na Suíça, como também está em cima da mesa um convite para fazerem uma residência artística em Taiwan, durante a Feira de Artesanato. O objetivo é conseguirem levar uma “avó” para representar o coletivo e ajudar a inspirar avós na outra ponta do mundo, mas falta-lhes orçamento para o poderem fazer. Aliás, não é só para isso que falta orçamento: se não conseguirem novos subsídios ou apoios de parceiros, podem perder o espaço que torna tudo isto possível.

Ao fim de quase dois anos, ninguém pode já ter dúvidas de que este projeto está em crescimento, foi bem sucedido nos objetivos de inovação social e tornou-se num veículo incontornável quanto à dignificação da vida na terceira idade. Mas falta ainda a sustentabilidade económica, que antes era colmatada pelo subsídio inicial que lhes foi atribuído para arrancarem com o projeto. Pagar a renda mensal da loja – além das restantes contas e materiais de trabalho das artesãs - tornou-se uma dificuldade e é por isso que Ângelo e Susana tem feito um apelo nas redes sociais: procuram um parceiro que lhes ceda um espaço para poderem continuar a fomentar estas experiências transformadoras que têm o condão da inclusão. Não haverá por aí nenhum espaço municipal desocupado que lhes possa ser cedido? Nenhuma fundação disposta a patrocinar um projeto que já devolveu a vida ativa a tantas pessoas? Cerca de €7.000 são suficientes para manter o projeto durante mais um ano e, à falta de parceiros maiores, apelam agora a donativos particulares (ver como clicando aqui).

As avós com Ângelo e Susana, os dois fundadores do projeto

As avós com Ângelo e Susana, os dois fundadores do projeto

O que A Avó Veio Trabalhar tem feito desde que abriu portas não é realmente caridade, é serviço público. Por todos os motivos e mais alguns, deixar morrer um projeto destes é impensável. Aliás, não percebo como é que ao fim de dois anos não há já apoios e iniciativa municipal, por exemplo, para o replicar noutras zonas do país. Um Portugal que sabe que a solidão na terceira idade é um verdadeiro flagelo social, mas qua ainda assobia para o lado.