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Expresso

Assédio: ouvir e calar ou responder e morrer?

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Mulher grita ‘slogans’ numa manifestação no México, contra o assédio sexual

FOTO YURI CORTEZ/AFP/GETTY IMAGES

Este título pode parecer exagerado, mas quando ouvimos a história de Michelle Ventura passa a fazer sentido. Esta brasileira, 30 anos, estava farta das bocas nojentas que, volta não volta, um homem lhe atirava quando passava por ela. As “cantadas” – como dizem por aquelas bandas – tinham sempre cariz sexual e, como é óbvio, a mulher sentia-se incomodada com o abuso de tal abordagem. Um dia fartou-se e decidiu ripostar. O homem, surpreendido com a ousadia daquela mulher, que em vez de ouvir e calar decidiu fazer-lhe frente e questioná-lo, não foi de modos: furioso, agarrou num pau e bateu-lhe na cabeça. Por despeito, como reação instintiva ao facto de ser questionado por uma mulher sobre o seu comportamento impróprio. Depois de quatro meses internada, Michelle morreu.

A notícia foi avançada por um jornal local de Niterói e obriga-nos a refletir novamente na importância da tão badalada “lei dos piropos” e nas razões que levam a que proteger as vítimas de assédio sexual, verbal ou feito de qualquer outra forma, seja essencial. Quando saiu a notícia sobre a alteração de lei cá em Portugal, houve uma onda de indignação, muita gente não percebeu sequer o que estava em causa (e não é certamente um homem dizer a uma mulher que ela é bonita e vice-versa). Na altura, tornou-se óbvia a ideia de que o abuso implícito num “piropo” ordinário, invariavelmente de cariz sexual, não tem nada de mal e que as mulheres deveriam simplesmente sentir-se lisonjeadas. Entre as muitas barbaridades que li e ouvi na altura, havia uma que se tornava repetitiva: “as mulheres até gostam, senão respondiam à letra”.

Ora bem, numa sociedade minimamente consciente, esta questão nem se colocava porque simplesmente os homens não exerceriam tal postura misógina de domínio (basicamente é a isto que se resume), achando-se no direito que poderem dizer a uma mulher que lhe fazem e acontecem só porque lhes apetece. Mas não é esse o mundo em que vivemos e as mulheres – principalmente as mulheres – têm de lidar diariamente com as tais bocas que nada têm de lisonjeiras; são sim desrespeitosas, nojentas e constrangedoras. Ignorar tais bocas leva-nos diretamente à gestão do receio intrínseco de uma nova agressão. Ora em formato de insulto e enxovalho público (feito num tom bem alto e indiscreto do que o do suposto “piropo”, como é óbvio”), ora em formato de ameaça ou concretização de agressão física. Sim, acreditem que tal acontece e não é só no Brasil.

O verbo “ignorar” tal qual panaceia para a falta de respeito alheia

Para perceberem melhor o que quero dizer com isto, recordo um episódio relatado pela Marlene Babo, no site Capazes, onde contava como tinha assistido a uma agressão do género em pleno centro comercial. Ao ouvir o clássico “comia-te essa c”#% toda”, uma rapariga ripostou com um “seu porco nojento!”. Ofendido com tal resposta, o rapaz de vinte e poucos anos voltou para trás e deu-lhe um estalo. Em pleno centro comercial, e ninguém fez nada a não dizer “tenham lá calma”, porque, afinal, não é com violência que se resolvem as coisas. Claro que ninguém pensa na violência que é ter de se ouvir uma proposta sexual vinda de um estranho. E claro que aquela rapaz não foi devidamente punido por assédio e agressão. A vida de ambos continuou: ele com mais certezas quanto ao domínio masculino que a permissividade cultural e a superioridade física lhe garantem, ela com a insegurança reforçada e a certeza de que mais vale ouvir e calar. É mesmo numa sociedade assim que queremos viver?

Não quero com isto dizer que a violência física seja a forma de resposta de todos os machos alfa que debitam bocas porcas na rua, ora como forma de auto-validação às suas frustrações, ora como sinal de misoginia crónica. Mas infelizmente este não é caso único. As situações abusivas para lá do “piropo” em si são mais que muitas, mas aquilo que nos ensinam desde miúdas é o verbo “ignorar” tal qual panaceia para a falta de respeito alheia.

Michelle fartou-se ignorar e acabou morta. Este homem – que tinha mulher e filhos pequenos - não premeditou este homicídio, parece-me óbvio. Mas assim como as mulheres são ensinadas a ignorar desaforos desde pequenas, os homens continuam a ser ensinados a usar a força em situações de conflito. E foi o que ele fez de forma instintiva. Atuar ativamente na educação para a mudança das mentalidades, que continuam a perpetuar a violência como forma resposta e o assédio verbal como um simples piropo que as mulheres devem aceitar com agrado, é um caminho urgente. A mudança da lei ajuda, mas certamente não chega.