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Expresso

Não são só umas cuecas, são uma oportunidade de vida

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FOTO BE Girl

Para a larga maioria das mulheres que estão a ler isto, ter o período não passa de um pormenor, mais ou menos doloroso, que se contorna mensalmente sem qualquer problema. No supermercado ou na farmácia, todas nós temos acesso aos materiais de higiene necessários para fazer deste processo biológico algo simples, prático e cómodo. Salvo raras exceções - provocadas, por exemplo, por hemorragias mais fortes ou dores que só quem passa por elas pode perceber - ninguém deixa de fazer a sua vida por causa da menstruação. Não é um impeditivo para o dia-a-dia, nem muito menos algo redutor ou que nos leve a isolamento social e familiar. Contudo, esta não é a realidade mundo fora. E há muitas mulheres e meninas que vêem as suas vidas drasticamente alteradas mensalmente por causa de algo à partida tão simples quanto o período.

Diz a UNICEF que mundialmente uma em cada dez meninas falta à escola por causa a menstruação. Em alguns casos, por causa de fatores culturais e religiosos - lembram-se das mulheres que vivem em tocas menstruais durante o período por serem consideradas impuras? - mas a principal razão é a falta de produtos de higiene ou de capacidade económica para os adquirir. Sem acesso a tampões, pensos higiénicos e demais opções que garantam a higiene durante a menstruação, são muitas as meninas e mulheres que ficam confinadas às paredes das suas casas, reféns do processo biológico do seu próprio corpo. Para muitas, quatro a cinco dias de afastamento da escola leva a que fiquem constantemente para trás, o primeiro passo para que sejam retiradas do ensino pelos próprios pais. Uma bola de neve que as arrasta, invariavelmente, para o casamento precoce, a maternidade quando ainda não são mais do que adolescentes (sem esquecer que a taxa de mortalidade em partos de meninas entre os 15 e os 18 anos continua a ser esmagadora em países subdesenvolvidos), à dependência financeira e à eterna exposição a violência doméstica (números da ONU mostram que quanto mais jovem uma menina casa, mais está sujeita a violência por parte do parceiro). Um ciclo vicioso em que ninguém tem a ganhar.

Diana Serra apercebeu-se de tudo isto quando foi estagiar para o Uganda. A escassez de materiais absorventes levava a que inúmeras das meninas com quem se cruzava faltassem à escola, factor decisivo para que acabassem por largar os estudos e entrassem no tal ciclo vicioso. As que tentavam fazer o seu dia a dia eram constantemente ostracizadas ora por colegas, como por professores, que muitas as vezes as mandavam de volta para casa por não terem a menstruação devidamente controladas. Um estigma que levava muitas delas a odiarem o seu próprio corpo. De volta ao seu país, a designer colombiana pôs mãos à obra para tentar arranjar uma solução que pudesse mudar o percurso de vida destas meninas. Que as fizesse sentirem-se mais autoconfiantes durante a menstruação e que as retirasse do isolamento forçado por falta de condições de higiene.

Diana, a criadora do projeto que mudou a vida de milhares de meninas

Diana, a criadora do projeto que mudou a vida de milhares de meninas

FOTO BE Girl

Em algumas das entrevistas que Diana tem dado, não se cansa de dizer: “Nós não estamos a falar de foguetões espaciais, estamos a falar de absorventes higiénicos. No entanto, ambos têm o mesmo efeito. Eles levam-nos lugares”. Neste caso, levam as meninas à escola, por exemplo. Ou as mulheres a contexto laboral, sem constrangimentos. A menstruação não tem - nem deve - ser um bicho papão, nem muito menos uma prisão ou algo que nos torna inferiores em termos de oportunidades e vida ativa. Graças a umas simples cuecas como estas, milhares de meninas vão finalmente poder perceber isto, e aceitar - e celebrar - o corpo feminino com todos os seus processos biológicos. Impressionante, não?

Foi assim que nasceu a ONG Be Girl, cujo ponto de partida é uma ideia que tem tanto de simples, quanto de extraordinária. E que por mais que, à partida, nos custe a entender, na realidade já está a mudar a vida de centenas de milhares de meninas em 13 países africanos. Basicamente, trata-se de umas cuecas que têm a opção de serem abastecidas com materiais absorventes, desde panos a papel higiénico, algodão, etc. Quando este material estiver cheio, basta trocar. O tecido das cuecas foi pensado para poder ser facilmente lavado sem ser necessária muita água (o acesso a água também pode ser um problema) e com secagem ultra rápida. (espreitem o vídeo em baixo para perceberem melhor)