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Expresso

Quem são os super-humanos portugueses?

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Leila Marques

FOTO NUNO BOTELHO

Há pessoas com quem nos cruzamos que nunca mais poderemos esquecer. Enquanto fiz da vida o jornalismo, cruzei-me com várias dessas pessoas inesquecíveis em contexto de entrevista e hoje é altura de relembrar algumas delas novamente. Nunca poderei esquecer, por exemplo, a Leila Marques, uma mulher que tanto tinha de sorridente quanto de metódica. Além da carreira na medicina, todos os dias – sem exceção - passava 5 horas dentro de uma piscina para se superar. Superação essa que lhe rendeu medalhas de ouro, prata e bronze mundo fora. O facto de ter uma malformação congénita do braço direito era apenas um pormenor.

Lembro-me também da Sara Duarte, uma mulher tão doce quanto implacável quando chegava a hora de montar o seu cavalo. Em 2008, quando nos cruzámos num picadeiro para conversarmos e eu assistir ao seu treino, ia representar Portugal em Pequim. De uma força inacreditável, Sara também traz hoje no seu currículo medalhas de bronze e ouro. O facto de ser portadora de paralisia cerebral, com 72% de incapacidade física, nunca a impediu de seguir o seu sonho na equitação e de honrar o seu país além-fronteiras.

Gabriel Potra

Gabriel Potra

FOTO NUNO BOTELHO

Um dia também fui ter com o Gabriel Potra mal o sol raiou, quando ele começava a treinar. De uma humildade tão grande quanto a excelência da sua carreira, explicou-me aquilo que lhe parecia óbvio: “O ser humano adapta-se bem às adversidades. A vida continua”. Foi o que lhe aconteceu aos sete anos, quando começou a perder a visão. Ser amblíope não o fez desistir de nada, pelo contrário. Dedicou-se ao atletismo aos 11 anos e hoje é uma referência internacional: foi recordista do Mundo de 400m durante dez anos, e além das duas medalhas de ouro conquistadas nos Jogos de Sidney, foi medalhado em sete mundiais e quatro europeus. No próximo mês é um dos nomes que vai representar Portugal nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro.

Nunca nenhum destes atletas de alta competição foi algum dia recebido por uma multidão em êxtase no aeroporto ou na ruas da sua cidade. Nem muito menos ganhou milhões de euros com as suas conquistas, por mais que sejam nomes de referência no panorama internacional do desporto adaptado. São heróis nacionais, é certo. Mas discretos, pouco aplaudidos e ainda parcamente subsidiados, por mais que alguns clubes e o Comité Paralímpico de Portugal façam um constante esforço para apoiar e dignificar estes profissionais que levam as cores de Portugal mais longe.

No próximo mês, são mais de 40 os heróis que vão representar Portugal no Brasil, em modalidades como atletismo, natação, boccia, judo, tiro ciclismo, canoagem e equitação. E a campanha #sempena2016 (dois exemplos em cima), promovida pelo Comité Paralímpico de Portugal – que até já foi premiada com os Prémios Lusófonos da Criatividade -, é uma óptima forma de nos relembrarmos que os heróis nacionais não se resumem apenas aos relvados dos estádios de futebol (sem qualquer desprimor por esses, parece-me óbvio).

Seja qual for a modalidade ou o formato de competição, não é pena que devemos sentir destes atletas. Mas sim orgulho. Em jeito de retrospetiva, aqui fica um pequeno apanhado das conquistas nacionais em Jogos Paralímpicos: 88 medalhas, 25 de ouro, 31 de prata e 35 de bronze. Tinham noção disto? Tal como diria o delicioso vídeo britânico “We’re The Superhumans”, dedicado aos atletas paralímpicos de todo o mundo, ‘yes, they can’. Vejam, inspirem-se e aplaudam quando chegar a altura. Este heróis também merecem.