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Expresso

“O meu pai trocou-me por 12 vacas”

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Cash Cows é o nome da reportagem multimédia da Al Jazeera que conta a história de Grace

Às vezes é preciso fazer um desenho para que ideias, à partida, básicas, possam passar. Esta semana falei por aqui sobre o drama do casamento infantil, que anualmente atinge 15 milhões de meninas. Tal como escrevia na quarta-feira: para terem melhor noção, são 28 meninas por minuto (façam a conta). Sabia à partida que este não era um tema “apelativo”, com direito a muitos cliques. Tristemente, já ninguém quer saber se um país onde os direitos mais básicos das mulheres e das crianças são violados diariamente dá o passo gigante de criminalizar algo como o casamento de menores de idade, mesmo que isso vá contra séculos de hábitos culturais. É errado, é crime. Ponto final.

Contudo, nas poucas notícias dadas sobre este tema, fui-me deparando com comentários de diversas pessoas que achavam que esta alteração da lei é apenas um pormenor e que, na realidade, casar uma menina não é assim tão grave quando esta nasceu numa tribo ou num país onde a violência doméstica é um modo de vida. Ou seja, se ela tivesse nascido no contexto ocidental, é monstruoso. Mas se nasceu em países onde a história, cultura e religião mostram há séculos que a mulher é inferior ao homem, isto deixa de ser tão grave. Afinal, estamos a falar de tradições, não é?

Não, não é. Uma criança é uma criança, seja em que parte do mundo for. E ceifar-lhe a oportunidade de uma vida justa, equilibrada e autónoma, de acesso à educação, à independência financeira, ao amor, a uma sexualidade saudável, ao poder de escolha, não pode ser considerado correto nem aqui, nem em lado nenhum. A evolução do mundo é isto mesmo, deixar cair os dogmas inquestionáveis que foram pilares do caminho durante muito tempo, para que possam surgir novas realidades mais justas. Acharmos que uma criança que cresce em contexto tribal africano, por exemplo, sofre menos do que uma criança europeia ao ser exposta a este crime é inconcebível.

Não percebes? Eles fazem-te um desenho

Foi a pensar nisso que Marc Ellison e Christian Mugarura fizeram, literalmente, um desenho para que as pessoas percebam o que está em causa quando falamos de situações como o casamento infantil. Num estrondoso trabalho multimédia que mistura vídeo, fotografia e ilustrações -publicado no site da Al Jazeera – a dupla conta a história de Grace Mansaja. Uma adolescente que foi vendida pelo pai aos 14 anos, para ser noiva de um homem muito mais velho, que não conhecia sequer.

Cash Cows é o nome da reportagem multimédia da Al Jazeera que conta a história de Grace

Cash Cows é o nome da reportagem multimédia da Al Jazeera que conta a história de Grace

O percurso desta adolescente é contado em formato de banda desenhada e acompanhado por pequenos excertos de vídeo, onde a própria conta na primeira pessoa os episódios dramáticos que viveu nos últimos anos. Antes de ser vendida como uma mercadoria, era a melhor aluna da sua turma e sonhava em ser enfermeira. Mas o mau comportamento do irmão levou a que o pai a proibisse também a ela de ir à escola, obrigando-a a trabalhar no campo. Um dia chegou a casa e um homem tinha trazido 12 vacas como pagamento pelo noivado. Grace recusou-se a casar. Acabou por ser espancada dia após dia pelo pai, até que foi levada à força para a sua nova casa.

Lá, foi espancada e violada sistematicamente pelo suposto marido. A sua vida resumiu-se a isso durante mais de um ano, até que o homem morreu num acidente de mota. Com um bebé recém-nascido nos braços, o que podia significar uma libertação foi o início de novo calvário para esta menina. Não tinha dinheiro para regressar a casa dos pais e acabou a pedir esmola nas ruas e a dormir ao relento com o filho nos braços até conseguir pagar um bilhete de autocarro. Foi assim que voltou para a sua família, que não via desde o dia em que foi levada de casa à força por um estranho.

Depois de ouvir as descrições atrozes da vida da filha, o pai pediu-lhe desculpa e refugiou-se atrás dos aspectos culturais. Como ela já era menstruada, era suposto casar e seria uma vergonha não a obrigar a tal. Mas hoje assume que esta tradição não faz sentido. Grace teve sorte por não ter morrido às mãos daquele homem que lhe ceifou para sempre a inocência. E também de ter sobrevivido ao parto sem condições que violentou o seu corpo franzino. Hoje trabalha em costura e ajuda a família, mas teme pela vida da irmã mais nova. Das doze vacas já só sobram seis e quando estas acabarem não sabe até que ponto o pai não mudará de ideias quanto a quão errado é vender uma criança.

Esta história passa-se na Tanzânia, um dos países que criminalizou o casamento infantil recentemente. O que para muito é um pormenor, para estas meninas pode ser a salvação. Espreitem a banda desenhada sobre a vida de Grace aqui.