Siga-nos

Perfil

Expresso

Ser mulher é uma guerra psicológica

  • 333

A mulher que vai para a cama com muitos homens é uma oferecida ou, é claro, uma puta. Já o homem que vai para a cama com muitas mulheres é um garanhão. Todos sabemos que este pensamento é um cliché, que está super batido e que já não faz sentido. Mas a verdade é que este cliché continua a ser válido mesmo nas sociedades mais evoluídas social e culturalmente. A liberdade sexual da mulher, que viveu séculos espartilhada ao comando dos desejos masculinos, incomoda. Por mais que ninguém goste de o admitir.

“Sexo é poder”, pelo menos é o que os media têm tentado dizer às mulheres nas últimas décadas, encorajando-as a serem mais desinibidas e livres na sua busca pelo prazer. Mas ao mesmo tempo continuam-nos a vender constantemente coisas como as “10 dicas para dar mais prazer ao homem” (vamos sempre ter ao homem como prioridade) ou a fazer o elogio à mulher recatada, que não deve ir para a cama com ninguém no primeiro encontro se quiser que a relação se desenvolva para algo sério. Além da eterna estereotipização do que é o corpo feminino perfeito e da forma como este ainda é objetificado de forma maciça, principalmente quando chega a hora de vender um produto aos homens. Celebra-se o corpo feminino, mas continua-se a dizer às mulheres que esse mesmo corpo não lhes pertence totalmente. Apenas alguns dos inúmeros contrassensos que levam a que duas poetisas norte-americanas não tenham dúvidas: nos tempos de hoje, “ser mulher é uma guerra psicológica.”

“Women”: um poema que põe em causa séculos de ideias pré-concebidas

Numa apresentação ao vivo para o canal All Def Poetry, a dupla Terisa Siagatonu e Carrie Rudzinski recitou um poema intitulado “Women” (“Mulheres”), onde fazem uma crítica fortíssima aos tais contrassensos que as mulheres dos tempos de hoje enfrentam, principalmente no que toca à percepção do seu corpo, do seu comportamento e da sua sexualidade. Começam por falar do caso de uma estudante universitária que foi alvo de ameaças e ofensas enviadas por centenas de pessoas quando revelou que para pagar os estudos tinha decidido ser atriz porno. Fã assumida de pornografia, a jovem explicou que tinha prazer não só em ver, como em fazer parte dos filmes, e que este prazer lhe trazia uma sensação de poder e de autoconfiança. Se fosse um homem a dizer isto, ninguém se admirava. Lá está, provavelmente seria o garanhão que sabe fazer uns trocos enquanto tem prazer. Mas sendo uma mulher o caso muda de figura e a jovem não era mais do que – voltamos ao mesmo – uma puta. Que deveria ter vergonha de tal comportamento. E porquê?

A resposta não é simples e era preciso analisarmos longos séculos de história da humanidade para chegarmos a respostas sólidas. O nosso inconsciente coletivo está repleto de ideias pré-concebidas sobre o papel da mulher na sociedade e sobre o que supostamente é aceitável no seu comportamento. O que nos leva muitas vezes a enfrentarmos julgamentos com dois pesos e duas medidas. Este poema é dedicado a isso, como um género de lembrete para a necessidade de alteração dos comportamentos mais básicos e subtis, que perpetuam diariamente a mensagem sexista que continua a prevalecer como uma sombra. Passada tanto por homens, como por mulheres.

Espreitem, oiçam e inspirem-se. Um bocadinho de poesia nunca fez mal a ninguém.