Siga-nos

Perfil

Expresso

Quando a vida de uma mulher vale tanto quanto a de um porco

  • 333

Página de abertura da reportagem Crying Meri, disponível no site do fotógrafo Vlad Sokhin

FOTO VLAD SOKHIN

Quando se pensa na Papua Nova Guiné, para muitos de nós a primeira coisa que vem à cabeça são certamente as imagens cénicas das montanhas cheias de impressionantes tons verdes, as tribos com rostos coloridos ou então as praias de águas límpidas e areias brancas. Contudo, este país que para muitos é ums foto postal de férias no paraíso, não é mais do que um inferno na terra para as mulheres que lá vivem. E foi isso que o fotógrafo Vlad Sokhin quis mostrar ao mundo com a sua verdadeiramente impressionante reportagem “Crying Meri”.

A Papua Nova Guiné é o país com maior taxa violência contra a mulher fora de zonas de conflitos armados. Estima-se que mais de 60% dos homens deste país já tenha participado numa violação em grupo. Nas zonas urbanas, a taxa de violência motivada pelo género chega a 67% da população feminina, já nas zonas recônditas das montanhas este número pode subir para uns avassaladores 100%. De acordo com um relatório dos Médicos Sem Fronteiras, de 3 mil sobreviventes de ataques sexuais seguidos pela organização em Port Moserby, em 2014, 94% era do sexo feminino e mais de metade eram crianças. Uma em cada seis dessas crianças tinha menos de 5 anos. E três em cada quatro destas vítimas conhecia o agressor.

A violência doméstica foi criminalizada em 2013 mas pouco ou nada mudou na Papua Nova Guiné. Quem vive no isolamento das montanhas, nem sequer consegue ter acesso a médicos para tratar as maleitas físicas provocadas por este tipo de violência, quanto mais faz sequer ideia de que já existe um pacote de medidas para Proteção Familiar aprovado no país. A misoginia é uma forma de vida.

Nesta reportagem – que pode ser lida na totalidade clicando aqui – Vlad Sokhin faz uma viagem pela realidade da violência contra as mulheres na Papua Nova Guiné. Uma viagem pesadíssima, divida em três capítulos distintos, onde tanto se podem encontrar fotografias, como também histórias contadas na primeira pessoa. Com uma abertura que contextualiza a realidade do país tanto em termos de criminalidade, como em questões culturais e religiosas que continuam a colocar a mulher como um ser de segunda.

A realidade destas mulheres em três capítulos

No primeiro capítulo da reportagem “Crying Meri” (‘meri ‘é a palavra usada para se referirem às mulheres), o jornalista conta como em Port Mosersby – uma das cidades mais perigosas do mundo - os gangues Raskol usam as violações como parte do processo de iniciação dos jovens que entram no universo criminoso que lidera a capital. No interior do país havia o hábito de pôr um miúdo a matar um porco como ritual iniciático, nas cidades os porcos foram substituídos por mulheres. Depois de roubar um carro, é preciso violar e espancar uma mulher para provar que se tem capacidades para fazer parte do gangue. Se a matarem e fizerem desaparecer o corpo, tanto melhor. Evitam-se problemas com a polícia. Tudo isto lhe foi contado por membros destes grupos criminosos, que na sua larguíssima maioria não demonstram qualquer arrependimento pelos seus atos.

No segundo capítulo, várias mulheres contam como são tratadas dentro do seu próprio seio familiar. Quando um homem paga o “preço da noiva” para casar, esta passa a ser um género de objeto que este pode usar como bem lhe apetecer, tal como se fosse um carro. E quando acham que essa posse já está gasta – principalmente quando estas envelhecem - muitos deles matam as próprias mulheres ou espancam-nas regularmente por frustração. E a justiça?, pergunta tanta gente. Mas a resposta não passa de: “Qual justiça?”

Os níveis de violência sexual dentro dos casamentos é indescritível, tal como o número de casos que nunca chegam sequer à polícia, quanto mais ao tribunal. Nesta reportagem, Agita, 32 anos, é um dos exemplos. Num retrato, surge lado a lado com marido, que mostra orgulhosamente o que lhe fez à orelha. Um dia chegou a casa bêbado e cortou-a. A única coisa que lhe aconteceu foi passar uma noite na esquadra da polícia, de onde saiu no dia seguinte por “falta de provas conclusivas”. A família da mulher também não autorizou que esta deixasse o marido, que lhes pagou 500 kina (cerca de 130 euros) para que esquecessem o caso. Também aqui os porcos podem servir de moeda de troca para se esquecer um ataque do género.

No terceiro capítulo Vlad Sokhin mostra a importância das superstições nestas comunidades, onde muitas mulheres são mortas pelos maridos com a desculpa de suspeita de bruxaria. Em algumas vilas mais recônditas é também comum que, quando a morte inesperada de um homem acontece, uma mulher seja acusada de magia negra. Foi o que aconteceu a Dini, 53 anos, que foi alvo de tortura e espancamento coletivo dos habitantes da sua aldeia quando o seu filho morreu com uma infeção no aparelho digestivo.

Por fim, na secção “Diaries”, o fotógrafo partilha com os leitores as fotos polaroid que foi tirando nas muitas visitas que fez a este país, juntamente com pequenos excertos de conversas e percepções que foi tendo pelo caminho. Na globalidade, o resultado é um trabalho duríssimo, de uma crueza que nos tira o chão debaixo do pés. Um retrato fiel de uma sociedade onde a mulher vale tanto como um porco e onde a palavra violência é ensinada com orgulho de pais para filhos. Por todas as mulheres retratadas – e por todas as que já foram silenciadas – este é um daqueles trabalhos que todos temos a obrigação de ler. Parabéns a Vlad Sokhin pela coragem de publicar algo assim.