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Expresso

As relações abusivas não vivem só de nódoas negras

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Espreitar o telemóvel ou fazer perguntas sobre com quem se está a falar ou a trocar mensagens. Menosprezar a carreira do parceiro e ridicularizá-lo com piadas de mau gosto à frente de outras pessoas. Exercer pressões sexuais, recorrer a manipulações, chantagens emocionais e vitimizações para se conseguir do outro o que se quer. Para muita gente, estes comportamentos poderão ser uma realidade diária dentro das suas relações, sem pararem para perceber que estes podem ter efeitos muito mais graves do que à partida parecem ter. Por mais subtis que possam ser quando postos em prática, são sinais de uma relação pouco saudável e merecem ser analisados em vez de chutados para trás das costas.

“Unhealthy Relationships” é a última curta da dupla Ali Vingiano and Brittany Ashley, que decidiu abordar o tema das relações abusivas pegando nas pequenas subtilezas que estas muitas vezes acarretam sem que a própria vítima dê conta ou sequer as valorize. Pequenos atos que a deixam desconfortável, insegura e infeliz, à mercê da atitude passivo agressiva de quem está do outro lado. “Com este filme quisemos mostrar quão difícil pode ser conseguir perceber que se está numa relação pouco saudável e mostrar que o abuso nem sempre é físico”, explicam as autoras, que se basearam nas suas próprias experiências para fazer este guião.

43% da mulheres da UE já foram alvo de abusos psicológicos

Dados das Nações Unidas revelam que 43% das mulheres residentes na União Europeia já foram alvo de violência psicológica em relações de intimidade. E como os parceiros não são obrigatoriamente homens, esta curta-metragem mostra precisamente este tipo de comportamento também num casal de lésbicas. Como diria o mesmo estudo da ONU sobre a violência no feminino, os abusos psicológicos dentro de relações são transversais a nações, extratos sociais, orientações sexuais, religiões e demais factores sociais e culturais. Mais comuns em mulheres, raramente são denunciados ou sequer assumidos pelas vítimas perante as pessoas que as rodeiam.

Não é portanto de estranhar que livros como o best-seller “As 50 Sombras de Grey” continuem a ser interpretados como uma história romântica e a serem idolatrados por pessoas do mundo inteiro, por mais que surjam estudos que mostram que na realidade é uma apologia às relações abusivas. Intimidação, vigilância, isolamento ou humilhação – algumas das situações representadas neste suposto romance - são todas elas formas de interação não só pouco saudável, como destrutiva. Mesmo que no fim a palavra “amo-te” surja como explicação para tais comportamentos.

Espreitem o filme. A sua mensagem é tão subtil quanto as situações que nele vão ver representadas, iguais a tantas outras que se prolongam por vezes uma vida inteira. Mas isso não quer dizer que não sejam abusivas e que não mereçam reflexão. Podem não deixar hematomas no corpo, mas as marcas psicológicas podem ser bem graves.