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Expresso

A vida de saltos altos

Assédio online: quando o feitiço se vira contra o feiticeiro

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Para quem se dedica a ler sobre questões de género, o nome Clementine Ford não é desconhecido. Jornalista, cronista e ativista, vive na Austrália e é por lá que se dedica a escrever sobre as subtilezas – algumas pouco subtis, é verdade - do sexismo no seu país. Um país onde os índices de violência doméstica levaram a que o próprio Governo dissesse há uns meses que a “violência contra as mulheres é a vergonha da Austrália”. A página pessoal de Clementine Ford é seguida por muitos milhares de pessoas que leem diariamente os seus artigos de opinião. Muitos aplaudem-na, outros vaiam-na e dizem que não passa de uma frustrada (entre outras coisas). No meio disto há também quem lhe faça ameaças violentas simplesmente porque não concorda com as suas opiniões. Foi o caso de Ryan Hawkins.

Mas no caso de Ryan Hawkins é caso para dizer que o feitiço se virou contra o feiticeiro. Em resposta a um post da ativista sobre a culpabilização das mulheres cujas fotos íntimas são roubadas e partilhadas na Web, este homem mandou-lhe por mensagem privada qualquer coisa como isto: “Vou bater-te e violar-te, sua puta. Escumalha lésbica!”. Farta de receber mensagens que destilam ódio, insultos e ameaças do género, Clementine decidiu partilhar a de Ryan, de vinte anos, na sua página de Facebook. E o que se seguiu foi um verdadeiro inferno na terra para o agressor, que provou do seu próprio comportamento.

Em poucas horas o telemóvel deste homem foi invadido de mensagens de ódio e de ameaças violentas enviadas por pessoas que não conhecia de lado nenhum, incluindo ameaças de morte. O seu perfil e a informação que ali tinha partilhado foi toda esmiuçada e houve mesmo quem divulgasse fotos do seu carro, a sua zona de residência, quem fizesse piadas sobre a sua mãe, sobre a sua sexualidade e por aí fora. As mesmas pessoas que muitas vezes insultaram Ford, agora vinham em sua defesa ameaçando e insultando este homem. Nem sequer parando para refletir sobre o facto de estarem a repetir exatamente o mesmo comportamento abusivo. Desde que haja alguém para atacar, estamos bem no mundo da Internet.

“Não mereço ameaças de morte nem emails ofensivos desta gente toda”, diz ele

Em pânico, Hawkins pôs no seu perfil de Facebook que tinha sido vítima da hackers e que não tinha enviado a mensagem à jornalista. Poucas tempo depois, apagou este post do seu perfil. Por fim, em entrevista, pediu desculpa a Clementine Ford, admitindo que a mensagem enviada tinha sido uma piada “idiota e vazia”, e que “nunca acreditou que esta a levasse a sério”. Pelo meio, ainda tentou a vitimização barata, dizendo que Clementine Ford foi injusta ao divulgar apenas a mensagem dele quando outras pessoas já lhe tinham enviado coisas do género e que ao fazê-lo a ativista já sabia de antemão que o resultado seria este, tão prejudicial para a sua vida pessoal. A sério, viva a lata. Aos media australianos saiu-se ainda com a seguinte pérola: “Acho que não mereço ameaças de morte nem emails ofensivos desta gente toda”.

Quanto a isso tem toda a razão. Mas o que Ryan Hawkins parece não perceber é que o que lhe está acontecer foi exatamente aquilo que ele fez no dia em que decidiu enviar aquela mensagem a Clementina Ford. Uma mulher que não o conhece de lado nenhum e que, caso realmente fosse uma brincadeira de mau gosto, não tinha por obrigação perceber que era uma brincadeira, nem muito menos de proteger o seu anonimato após uma forma de assédio do género. Mesmo que ela o conhecesse, “brincar” com violência sexual é por si só doentio e bem demonstrativo da falta de noção não só da gravidade do tema, mas também dos limites do aceitável.

Com o seu registo habitual, onde não falta frontalidade, Clementine Ford deixou claro o seu objetivo com esta história: “Escolhi partilhar isto porque muitas vezes os agressores escondem-se por trás do véu do anonimato e da privacidade. Quando as mulheres se queixam de assédio ouvem muitas vezes ou que estão a inventar, ou então que estão a exagerar. É importante que estes agressores do universo online percebam que não estão assim tão protegidos quanto isso”.

“As palavras têm consequências”

Já na semana passada por aqui falávamos sobre a campanha brasileira que confrontou os bullies online com as suas próprias palavras espalhadas em outdoors, junto às suas áreas de residência. Mesmo com as caras e nomes ocultados, muitos apagaram os seus perfis. Outros admitiram sentir vergonha e que só depois deste confronto é que pararam para refletir nas consequências do seu ato. Um ato que achavam estar protegido pelo suposto anonimato da Web e que por ser feito no mundo virtual era mais aceitável e livre de consequências legais. Por aquilo que vou vendo na Net, acredito que há muita gente a pensar o mesmo. O que está em causa não é a apologia justiça popular – que, é bom que se entenda, não é caminho para ninguém – é a consciencialização.

No recente caso de Clementine Ford, as autoridades australianas vieram esclarecer publicamente que o assédio online já tem previstas penas que podem mesmo incluir prisão. A ativista não avançou com a queixa na polícia e, inclusive, até apagou o post onde mostrava as palavras daquele homem. Porque? Porque a lição já tinha sido dada e o seu ponto de vista tinha acabado por ser partilhado a uma escala bem alargada. “Este homem deveria refletir profundamente sobre quais as razões que o levam a enviar uma mensagem do género a alguém e a achar que o que escrever é engraçado e aceitável”, resume Ford. “As palavras têm consequências e o abuso sexual não pode continuar a ser visto como uma brincadeirinha”. Acredito que pelo menos Ryan Hawkins nunca mais se vai esquecer disto.