Siga-nos

Perfil

Expresso

O que acontece quando bullies online são expostos em outdoors?

  • 333

“Você pode perguntar a todos os seus amigos negros, todos. Todos eles foram chamados de macacos na infância”. Tão verdade. Lembro-me da minha própria infância e da forma como ostracizávamos a pequena Jacira no recreio a gritar-lhe a frase “olha a preta, olha a preta”. Outra coleguinha de turma era morena, mais morena do que qualquer outro menino. Ela era a macaca. Nunca ninguém nos repreendeu por estas palavras e para todas aquelas crianças, entre os 6 e os 9 anos, todo aquele circo de humilhação e discriminação, entre palmas e gritinhos, era algo normal. Aceitável. Provavelmente, um cenário que muitos viriam a repetir ao longo das suas vidas, sem pudor. Mesmo quando já tinham idade para saber o que era certo ou errado.

O racismo continua a ser uma realidade transversal no mundo de hoje. E no Brasil, um país onde todas as raízes se cruzam, ironicamente, é um dos seus maiores problemas culturais e sociais. Para o combater, a ONG Criola - que se dedica desde 92 à defesa e promoção de direitos das mulheres negras, numa perspectiva integrada e transversal – criou uma campanha que tem este mote: “Para acabar com o racismo é preciso encará-lo”. E foi assim que surgiu a fabulosa campanha “Espelhos do Racismo”, onde os bullies do universo online são confrontados publicamente, nas ruas das suas cidades, com as palavras racistas proferidas no suposto anonimato da Web.

A ideia da campanha, entretanto premiada em França, é bem simples. Ponto de partida: o caso de Maria Júlia Coutinho, a primeira apresentadora de meteorologia do Jornal Nacional do Brasil, que foi alvo de uma onda massiva de comentários racistas quando surgiu na televisão. Depois de localizada geograficamente a proveniência de alguns desses comentários, foram colocados 50 outdoors junto às moradas desses endereços IP, onde se podia ler em tamanho gigante a mensagem racista proferida nas redes sociais.

“Se tomasse banho direito não ficava encardida”

Todos sabemos que a Internet, particularmente as redes sociais e as caixas de comentários de jornais online, se transformaram num verdadeiro campo de batalha, onde diariamente se vomitam, por escrito, frustrações, discursos de ódio e ofensas graves. Um universo onde muito facilmente se perdem filtros base tão essenciais quanto o respeito ou o bom-senso. Danos colaterais do suposto anonimato vivido na web? O que é certo é que esse anonimato é, cada vez mais, uma falácia.

“Cheguei a casa fedendo a preto. Se tomasse banho direito não ficava encardida. Macaca preta. Essa nega fedida tá implorando por atenção. Cabelo de parafuso enferrujado. Vai te foder nego sujo, eu tomo banho tu já não sei”. Estes são apenas alguns dos comentários usados nesta campanha. E embora as caras dos agressores expostos nestes outdoors tenham sido pixelizadas, 83% dessas pessoas apagaram os seus perfis quando as frases foram colocadas perto das suas zonas de residência. Vergonha? Medo? Talvez. Fora do mundo online tudo ganha outros contornos. Um deles – apenas um - quis ser ouvido e dá mesmo a cara neste vídeo para pedir desculpa pelo seu ato. Ato esse sobre o qual só refletiu e sentiu vergonha quando se viu exposto em praça pública.

Educar, ensinar a reagir, sensibilizar quem já tinha vontade de lutar contra isto, mostrando que na realidade até pode ser mais simples do que parece, são os grandes objetivos desta campanha. Confrontar publicamente quem o faz pode ser um belo ponto de partida. E os fatores culturais, com tudo o que acarretam graças a séculos de atitudes discriminatórias, não podem continuar a servir de desculpa.

Espreitem o vídeo em baixo, é uma bela lição de civismo em menos de cinco minutos.