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Expresso

O lado labrego dos jornais desportivos

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O cenário é invariável: fotos de mulheres semi-nuas, em poses sensuais. E as frases que as acompanham deixam frequentemente promessas no ar. Matilde Rossi encanta... até debaixo de água. Alina promete 16 horas de sexo a Kokorin. Ela não sabe ser tímida. Se à primeira vista já é o que é... imagine à segunda e à terceira! Quem não quer sonhar com Melissa Satta?

Não, não estamos a falar de publicações eróticas, nem muito menos de filmes para adultos. Estamos a falar de jornais desportivos e todas estas frases que citei anteriormente são títulos de supostas notícias. Sim, de notícias. Se quiséssemos entrar na onda e fazer um trocadilho fácil, seriam ‘nutícias’. Mas a verdade é que isto não só não tem piada, como me parece altamente redutor para quem lê este tipo de publicações. A larga maioria são homens, dizem as mesmas. Mas será que é mesmo isto que querem ler entre análises de jogo e notícias de campeonatos?

Todos os jornais têm faits divers. Principalmente nos sites, estes proliferam, rendem bons cliques e, consequentemente, audiência. Também me parece óbvio que todos nós gostamos de nos cruzar com conteúdos de descompressão, desde os vídeos de gatinhos e bebés, às fotogalerias com imagens de viagens ou até mesmo às curiosidades do mundo das “estrelas”. Quem nunca clicou que atire a primeira pedra. Contudo, o enfoque de descompressão dos jornais desportivos nacionais e internacionais parece ser só um: mulheres. Sempre que possível, nuas. Sem grande história pelo meio, apenas com fotos de rabos e mamas ao léu, descritas com frases do género “a companhia ideal para esquecer os desaires dentro do campo”.

Confesso que não tenho por hábito ler jornais desportivos e a razão é simples: não é uma temática que me interesse, embora haja muito bom jornalismo feito nestas publicações. Mas talvez por isso me tenha sentido algo chocada quando um homem – sim, foi um homem que fez o reparo – me chamou alertou para o tipo de notícias totalmente sexistas e vazias de conteúdo que os nossos desportivos publicam massivamente, principalmente nos seus sites. Partindo do princípio que aquilo que os seus leitores querem é isto. Será? Ou será que também não estamos simplesmente a estereotipar o homem que lê notícias de desporto? A rotulá-lo como um género de labrego com défice de massa cinzenta que, por gostar de futebol, obviamente também quer ver mulheres nuas enquanto bebe a bica e lê o jornal?

Uma mulher de fato treino não dá tantos cliques

Há jornais que até se esforçam por ir buscar conteúdos com algum cariz desportivo, como um artigo sobre Jasmine Tookes, uma modelo que partilha os seus exercícios de fitness no Instagram. Contudo, o título “Ela não sabe ser tímida” é desde logo incompreensível e o pequeno texto que acompanha é , enfim, uma apologia ao embrutecimento intelectual: “Jasmine Tookes é uma modelo norte-americana de 25 anos que adora partilhar os seus exercícios de fitness no Instagram. A bela morena conta com mais de 1 milhão de seguidores na sua página”. Sim, o texto deste artigo é só isto. Mas se pensam que não deu trabalho, enganam-se: seguem-se 47 fotos da dita “bela morena” com timidez a menos (também não percebo onde foram buscar esta constatação, terão falado com a senhora?) em biquíni, mas se entrarem no perfil de Instagram da mesma é preciso perder-se tempo para conseguir encontrar estas fotos escolhidas a dedo. Já que a senhora é um exemplo do fitness, porque não partilhá-la em fato de treino, por exemplo? Ah, é verdade, as gajas nuas rendem mais cliques. Só não percebo é o que é que isto tem a ver com desporto.

Depois, há também artigos que nem sequer têm conteúdo de alguma forma relacionado com desporto. Um dos exemplos recentes que me passou pelos olhos foi uma suposta notícia com um título por si só já a puxar ao estereótipo: “Se o Brasil fosse na Europa”. Uma fotogaleria com 30 imagens mostra repetidamente uma modelo em lingerie. “Cassiane Pires é modelo, é brasileira e é bem interessante. Veja aqui a fotogaleria e delicie-se”. Delicie-se? Estamos a falar de um naco de picanha?

Em publicações cuja linha editorial tem enfoque no desporto, parece-me que este uso e abuso da imagem feminina com cariz sexual para “distrair” os seus leitores dos desaires da bola é tão sexista, quanto labrega. Desculpem-me, mas é essa a única expressão que me ocorr. Se querem falar de mulheres em jornais desportivos, então agarrem nos grandes nomes femininos que dão cartas em tantas áreas do desporto profissional, um pouco por todo o mundo.

No desporto não existem apenas as modelos que fazem fitness e que o partilham em fotos de biquíni nas redes sociais. Tal como há muito mais do que as loiras que alegram as bancadas do Euro. Nada contra estas senhoras, entendam. Só que simplesmente não faz sentido. Revejam também, por favor, a forma como se referem às mulheres quando escrevem idiotices como “ Federica, a mais bela conquista de Matri” ou Kayla Cardona, o troféu que Connor Wickham tinha em casa. As mulheres não são troféus de ninguém, não são medalhas nem campeonatos que se conquistam, por mais que esta piadinha seja fácil.

Se é ofensivo e redutor para nós que se lembrem das mulheres apenas quando é para fazer os tais artigos de descompressão, também é altamente redutor para os leitores pô-los no patamar do grunho que precisa de ver mamas e rabos para ficar mais bem-disposto depois dos resultados do futebol não terem sido os melhores. Meus senhores, de certeza que conseguem fazer melhor.