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Expresso

Uma mulher que não use sutiã está a incomodar os homens?

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Montana, Maio de 2016. Uma adolescente está a andar nos corredores da sua escola com uma amiga quando o diretor a interrompe e lhe pergunta: “Não te esqueceste de nada hoje? Temos de falar sobre esse teu vestuário inapropriado”. A jovem, de calças de ganga e t-shirt preta, não percebeu qual era o erro na sua escolha de roupa naquele dia. A pergunta seguinte do diretor elucidou-a: “Estás usar sutiã?”. Não, não estava. E para seu espanto isso era afinal um problema. “Bem, vais ter de te tapar”, disse-lhe o diretor. “Há muito professores e alunos homens por aqui, isto pode incomodá-los. Eles não querem ver isso.”

Quando achamos que já ouvimos tudo no que diz respeito a demagogia no meio escolar, afinal há sempre mais alguma coisa a acrescentar. Depois da saga dos calções nas escolas brasileiras – que as meninas não deviam usar para não incentivar os rapazes a atos menos próprios (como escreveriam os miúdos de hoje: wtf?!) - , chega agora a saga dos sutiãs. Caro senhor, vamos lá entender-nos, se uns mamilos salientes por baixo de uma t-shirt ou um peito solto por baixo de um vestido o incomodam a si e aos seus colegas, é simples, não olhem. Também ficam incomodados quando veem os mamilos dos homens espetados por baixo da roupa?

Que fique claro de uma vez por todas: as mulheres não usam sutiãs para que os homens se sintam mais confortáveis. Nós usamos sutiãs para nós nos sentirmo-nos mais confortáveis. Para que o peso do peito não nos magoe a coluna, por exemplo. Para que não fique tão solto e descaído, basicamente para nos ajudar a contrariar a lei da gravidade. Custa assim tanto entender isto? Claro que historicamente todo o percurso desta peça de vestuário teve sempre um cariz sexual associado, de sedução, de modelação das formas femininas. E para quê? Para agradar ao homem e aos seus desejos. Aliás, foi esta a função da mulher ao longo de muitos séculos. Mas hoje temos de ser simplesmente pragmáticos e perceber que um sutiã já não é mais do que um utensílio de conforto do dia-a-dia que, volta não volta, ganha cariz sexual. Quando nós bem entendemos.

Pelos vistos, para este diretor de uma escola secundária dos Estados-Unidos, isto não é bem assim. A sua obrigação enquanto educador que dá o exemplo parece-me óbvia: educar os seus alunos para respeitarem quem os rodeia e, neste caso, desconstruir o pensamento de que a roupa de uma mulher decreta se ela é ou não merecedora de respeito. Contudo, o que ele fez foi espalhar publicamente uma mensagem de sexualização e objetificação do corpo feminino, além incentivar ao tão em voga “body shaming” ao admoestar publicamente a aluna por não usar um soutien por baixo da t-shirt. Isto faz algum sentido? É mesmo este o exemplo que queremos dar às gerações que estamos a educar?

Chateada com tudo isto, a jovem partilhou a sua indignação no Snapchat e o que se seguiu foi um movimento de dezenas de alunos da escola que lhe sugeriram fazer um Dia Sem Sutiã. E assim foi, com as redes sociais enquanto rastilho. Criaram um evento de Facebook e, no dia marcado, dezenas de adolescentes foram para a escola sem sutiã. Na primeira vez que foi chamada ao gabinete do diretor, a

Uma mulher que não use sutiã está a incomodar os homens?

Pelos vistos, para este diretor de uma escola secundária dos Estados-Unidos, isto não é bem assim. A sua obrigação enquanto educador que dá o exemplo parece-me óbvia: educar os seus alunos para respeitarem quem os rodeia e, neste caso, desconstruir o pensamento de que a roupa de uma mulher decreta se ela é ou não merecedora de respeito. Contudo, o que ele fez foi espalhar publicamente uma mensagem de sexualização e objetificação do corpo feminino, além incentivar ao tão em voga “body shaming” ao admoestar publicamente a aluna por não usar um soutien por baixo da t-shirt. Isto faz algum sentido? É mesmo este o exemplo que queremos dar às gerações que estamos a educar?

E assim nasceu o Dia Sem Sutiã nesta escola de Montana

Num artigo publicado no The Guardian, a aluna explica que no primeiro dia que foi repreendida pela diretor se sentiu “envergonhada, quase violada, porque nem sequer dava para perceber que não estava a usar sutiã”. Só “se ficassem a olhar intensamente” para os seus seios, o que, pelos vistos, foi o que o tal professor fez. A adolescente explica ainda que, de vez em quando, gosta de andar sem sutiã para se sentir mais à vontade – por mais que estes nos ajudem no que toca à gravidade, não há nada como andar “à solta”, sem estarmos apertadas – e que ao contrário do que o diretor insinuou naquela conversa, “não tinha intenção de mostrar nada a ninguém”. Ou seja, não bastava ser repreendida porque estava supostamente a incomodar os homens à sua volta ao não usar sutiã, como ainda lhe dizem que o está a fazer para provocar sexualmente quem a rodeia. A uma aluna de escola secundária.

Chateada com tudo isto, a jovem partilhou a sua indignação no Snapchat e o que se seguiu foi um movimento de dezenas de alunos da escola que lhe sugeriram fazer um Dia Sem Sutiã. E assim foi, com as redes sociais enquanto rastilho. Criaram um evento de Facebook e, no dia marcado, dezenas de adolescentes foram para a escola sem sutiã. Na primeira vez que foi chamada ao gabinete do diretor, a jovem tentou explicar que a sua motivação era simplesmente ajudar a quebrar a ideia pré-concebida de que as mulheres têm de usar sutiãs para agradar aos homens e provar que ninguém deve ter vergonha do seu corpo, nem muito menos sentir que o está a sexualizar por não usar um adereço do género. Uma explicação bem adulta, parece-me.

Mas mais uma vez o professor não percebeu – ou não quis perceber - e durante o dia tirou-a da sala de aulas quatro vezes ameaçando-a com sanções caso não cancelasse o evento no Facebook. Porquê? Porque tantas miúdas sem sutiã eram “uma distração na escola”. A história deu que falar e a adolescente foi parar aos jornais locais, depois às televisões nacionais e, por fim, galgou fronteiras. Resultado: enquanto muitas mulheres mundo fora aplaudiram a sua resiliência no que toca a defender algo que deveria ser tão simples de entender, foram também muitos os homens e miúdos que, lá está, se sentiram “incomodados” e não só a criticaram, como lhe inundaram a caixa de email com mensagens ordinárias e ofensivas. O que teria o tal diretor a dizer sobre isto? Que ela estava a pedi-las?

É tão triste ainda termos de andar a discutir questões do género em sociedades que se dizem evoluídas. Que vergonha.