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Expresso

Obama, o feminista cinzento

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FOTO SAUL LOEB/AFP

Quem foi seguindo o evento, sabe certamente que não foi ao acaso que Barack Obama fez esta semana uma das participações mais aplaudidas da Cimeira United State of Women, que, tal como nome indica, foi dedicada a debater o papel da mulher na sociedade norte-americana e no mundo. Como sempre, Obama chegou, falou e encantou. Claro que a mensagem subentendida desta sua participação - onde durante quase meia-hora enalteceu a ascensão feminina ao poder - esteve claramente ligada às próximas presidenciais com Hillary Clinton. Mas estratégias políticas à parte – e pensando que na corrida há um ser que não se coíbe de chamar publicamente às mulheres coisas como “porcas gordas” – vale a pena ouvir o discurso de Obama e refletir sobre algumas das coisas que ele disse.

Obama começou por brincar com uma frase que até podia ser uma simples piada, mas que simboliza e bem o que muitas mulheres ouvem recorrentemente. “Estou mais cinzentão do que era há uns anos. Mas é isto que as feministas parecem, não é?”. Num país onde direitos tão essenciais como uma licença de maternidade paga ou igualdade salarial entre géneros continuam a ser problemas que afetam a vida de milhões de pessoas, é importante que a génese da necessidade do feminismo nos tempos de hoje seja clarificada. E nada como dados concretos sobre a realidade, que ainda está longe de ser equilibrada entre homens e mulheres.

Posto isto, Obama optou por usar a Cimeira como “uma oportunidade de refletir sobre quão longe já chegámos, mas também quão longe ainda temos de tentar chegar”. “Em 1961, quando eu nasci, as mulheres eram bem menos de 40% dos alunos universitários. Hoje, são mais de 60% e metade da força laboral do nosso país”. Em tom de reprospetiva, falou também sobre o acesso aos meios contraceptivos, do tempo em que as mulheres precisavam da permissão do marido para terem uma conta no banco, de quando era reprovável que uma mulher não casasse, de quando as meninas não podiam fazer desporto porque era mal-visto. Sobre o presente não esqueceu também os índices avassaladores de violência doméstica contra a mulher existentes nos Estados Unidos, as estatísticas do abuso sexual, as diferentes formas de discriminação e, é claro, a amnésia coletiva que tantas vezes parece pairar na cabeça de uma nação que se esquece frequentemente do seu passado.

Mulheres no poder: progresso que deve ser celebrado

“Foi há cerca de 100 anos que a feminista Alice Powell e outras sufragistas foram presas à porta da Casa Branca por se manifestarem pelo direito ao voto. Hoje, as mulheres são mais de metade do nosso eleitorado”, frisou Obama no seu discurso. A verdade é que muito mudou e “que hoje as mulheres estão a liderar uma boa parte da América, desde Hollywood a Silicon Valley”. Contudo, Obama deixa claro: “A isto eu chamo progresso. É uma realidade e devemos celebrá-la. Mas também devemos lembrar-nos de que o progresso não é inevitável. É o resultado de um caminho longo, lento, incansável, tantas vezes frustrante e que continua a ser pouco reconhecido.”

Um caminho que no futuro exige, acima de tudo, a alteração de mentalidades. “Se vamos realmente continuar a mudar as nossas leis, então também vamos ter que mudar outras coisas. Vamos ter que mudar a forma como nos vemos a nós mesmos, e isso até já está a acontecer, mas eu gostava que fossemos mais peremptórios”, disse Obama. “Os estereótipos emocionais, sexuais e psicológicos das mulheres começam quando o médico diz ‘é uma menina’. No futuro temos de conseguir mudar esta atitude que nos leva a educar as meninas para serem ‘discretas’ e os meninos para serem ‘assertivos’. Precisamos, por exemplo, mudar a atitude que ainda pune as mulheres pela sua sexualidade, mas que dá aos homens palmadinhas nas costas. Temos de mudar a atitude que nos ensina a sermos confiantes, competitivos e ambiciosos no local de trabalho - a menos que sejamos mulheres.”

Agarrando no exemplo das suas próprias filhas adolescentes, relembra que estas fazem parte de uma geração “que não vai permitir que haja retrocesso após toda a luta feminista que lhes precedeu para chegarem onde estão hoje”. E que o que vivemos hoje nas sociedades ocidentais pode e deve ser uma porta para um “futuro no qual todos nós, aqui em casa ou em qualquer parte do mundo, sejamos livres de perseguição contra nossos sonhos". Esperemos que sim. É verdade que Obama não diz aqui nada que nós já não saibamos. Mas a verdade é que muita gente continua a não querer saber. E embora eu não seja muita dada a discursos políticos enquanto panaceia para os males do mundo, este está tão bem escrito que vale a pena ouvir.