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Expresso

Não é honra, é crime

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Zeenat Bibi,16 anos, foi morta pela própria mãe por casado contra a vontade da família

FOTO AP

Todo este texto se poderia resumir a uma frase: queimar uma pessoa até morte não é um ato de honra, é sim um ato criminoso. Mais uma vez chega-nos do Paquistão uma história de horror que tem como base os chamados ‘crimes de honra’: com a ajuda do filho mais velho, uma mãe amarrou a filha de 16 a uma cama, regou-a com gasolina e queimou-a até à morte. À porta de casa, os restantes membros da família impediam os vizinhos de lá entrarem para travarem o crime. No fim, a matriarca saiu de casa, bateu com os punhos no peito e gritou: “Matei a minha filha por ter dado mau nome à nossa família!”.

O suposto “crime” da filha, Zeenat Bibi, foi ter casado em segredo com o rapaz que amava desde miúda, contra a vontade da família. Família que, quando descobriu que a união estava irremediavelmente feita, lhe garantiu que a iria aceitar. Mas que antes fazia questão de dar uma festa. Primeiro, a jovem teve medo. Depois confiou na palavra de um tio mais velho, que supostamente estava a arquitetar todo o plano secreto e criminoso que devolveria a honra à família. Quando a jovem regressou a casa dos pais para preparar a boda, o que encontrou foi o caminho para a morte. Pelas mãos da própria mãe e irmão.

2015: 1096 mortas em crimes de honra

Infelizmente, os crimes de honra não são raros no Paquistão. Aliás, números revelados no fim de abril mostram que em vez de diminuírem, nos últimos anos este têm vindo a aumentar. Ou, pelo menos, a denúncia dos mesmos às autoridades subiram. De acordo com a Comissão para os Direitos Humanos do Paquistão, só no ano passado 1096 mulheres (e 88 homens) foram mortas por familiares que acreditavam que estas tinham desonrado o nome da família. Quase 200 destas vítimas eram menores de idade. Em 2015 tinham sido à volta de 1000 e em 2013 cerca de 870. Números demasiado elevados - embora devam ser apenas a ponta do icebergue -, que continuam a contar com a proteção de uma lei deficitária e incompreensível, que permite que o perdão familiar dado ao criminoso em casos destes seja o suficiente para que justiça não seja feita. E cuja alteração o Parlamento insiste em chumbar.

Num país que é considerado um dos mais perigosos do mundo para uma mulher viver, em muitos casos a palavra feminina ainda pouco conta no que toca a escolher o seu destino. A lavagem cerebral para a honra da família como um bem maior começa desde cedo. Homens e mulheres são educados para acharem normais estes crimes, como se fossem de alguma forma aceitáveis e justificáveis. Daí o peso do perdão familiar em tribunal. Como diria a irmã da rapariga que há uns anos foi baleada pelo pai e atirada a um rio dentro de um saco plástico: “Depois do que ela fez, o que é que ela estava à espera?”. Neste caso, o seu “crime” foi também ter recusado as ordens da família sobre com quem deveria ou não casar. Ao contrário de Zeenat, esta rapariga sobreviveu e a sua história deu azo ao documentário “A Girl in The River – The Price of Forgiveness”, vencedor de um Óscar. Se tiverem tempo, aproveitem os feriados para o ver. Vale muito a pena.