Siga-nos

Perfil

Expresso

Endorgan: mulheres sem filhos têm vidas deficientes

  • 333

FOTO © VINCENT KESSLER / REUTERS

Com tiques de ditador, Recep Endorgan tem vindo a acentuar o discurso religioso em várias frentes, algo que só pode trazer instabilidade para aquela região, como também para a vida das suas gentes – que já há várias anos ambicionam uma aproximação à União Europeia. Esta semana, o Presidente turco voltou a deixar bem claro que se está literalmente nas tintas para o bem estar das mulheres do seu país, para o que elas realmente ambicionam e desejam enquanto cidadãs. A maternidade voltou a ser o tópico.

Durante um evento na Associação Democrática de Mulheres da Turquia – quão irónico pode isto ser? – Endorgan deixou clara a sua posição sobre aquela que é sua visão sobre o papel feminino na Turquia, acusando as mulheres que não tencionam ter filhos de estarem “a desistir da humanidade” e acabarem condenadas a vidas “deficientes e vazias”. Sim, foi mesmo um Presidente que disse isto (Donald Trump deve ter batido palmas, aposto). E aconselha-as, para o bem da nação, a terem pelo menos três filhos.

Durante o seu discurso na sede daquela associação ligada ao universo das Mulheres, Endorgan não teve papas na língua na altura de explicar a sua opinião: "Uma mulher que diz 'porque trabalho não vou ser mãe' está a negar a sua feminilidade". Tão simples quanto isto, como se o papel da mulher se resumisse a ser um género de parideira. Sem isso não são mulheres a 100%, femininas ou completas, ponto final.

A culpa é da carreira, diz Endorgan

Com tais palavras, Endorgan queria atacar, acima de tudo, as mulheres turcas que, cada vez mais, se têm dedicado à carreira nos primeiros anos da sua vida adulta, deixando as questões da maternidade para mais tarde ou até mesmo colocando-as de lado. Não só questiona a sua opção individual – que, verdade seja dita, não diz respeito a mais ninguém - como a critica publicamente. E coloca-lhes o rótulo de mulheres com “vidas deficientes”. Sempre com a carreira como mote, como se a ambição profissional da mulher, e consequente participação no mercado de trabalho e vida ativa do país, não fosse mais do que um problema. Numa nação em pleno processo de islamização social, percebem a mensagem subliminar que ele tenta passar com isto, certo? Também tem imensa piada que, no que diz respeito aos homens que não querem ter filhos – que também os há, obviamente –, já não existam adjetivos como “deficientes” para lhes colocar como rótulo. Porque será?

Claro que no meio disto, Endorgan não me parece que tenha sequer pensado que, ao dizer este tipo de barbaridades, está simplesmente a ostracizar, por exemplo, as mulheres que não podem ter filhos. Já não bastava a dor que muitas delas – as que desejam ser mães – terão. Agora, têm o próprio Presidente do seu país a dizer-lhes de caras que são mulheres incompletas, deficientes e pouco femininas. É grave que um líder não tenha pensado nisto antes de abrir a boca para fazer comentários do género, que não são mais do que uma apologia à discriminação e à redução da figura feminina na sociedade.

Esta não é a primeira vez que Endorgan puxa dos galões para ditar sentenças sobre a maternidade. Ainda há pouco tempo apelou a que todos os muçulmanos rejeitassem o controlo da natalidade – ou seja, o uso de meios contraceptivos - e já no passado se tinha referido ao aborto como um ato assassino. No meio disto, parece esquecer-se de coisas tão básicas quanto a consciência para a importância do controlo de natalidade num país onde praticamente um quarto da população vive abaixo da linha da pobreza. E também que as doenças sexualmente existem em larga escala por lá. Ah, mas é verdade, o sexo também deve ser só para procriação, certo?

Já por aqui tínhamos falado sobre a necessidade de aceitarmos de uma vez por todas que a maternidade não deve ser uma obrigação, nem muito menos uma imposição familiar ou cultural. Por mais que nos vendam a justificação biológica - da natureza maternal da mulher e da nossa capacidade de gestação – como dogma, não estamos a fazer mais do que tentar justificar uma crença social com um argumento genético. Sim, nós podemos gerar um criança. Mas não, nós não somos obrigadas a querer fazê-lo só porque é isso que a sociedade nos diz ser o caminho certo. O nosso caminho pode ser simplesmente outro. Nenhuma mulher é menos mulher por não querer ser mãe, assim como nenhum homem é menos homem por não querer ser pai. Não há nada de errado ou de condenável nisto.