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Expresso

“Foram só 20 minutos de ação”, alega o pai do violador

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FOTO DAN HONDA/AP

Janeiro de 2015. Um caloiro de uma universidade da Califórnia é apanhado por outros dois alunos a abusar sexualmente de uma rapariga, inconsciente. Há uns tempos falámos aqui a propósito da realidade da violência sexual nos campus universitários do Estados Unidos, que o documentário “The Hunting Ground” tenta retratar através de inúmeras entrevistas. Apelidados pelas vítimas como “zonas de caça à mulher”, são territórios supostamente protegidos por um género de sistema endémico de encobrimentos institucionais baseados em jogos de poder, racionalizações e menorização dos crimes e vitimização dos agressores. No caso de Brock Allen Turner, o facto de ter sido apanhado em flagrante contribuiu em muito para que a impunidade total não levasse a melhor no seu caso.

Mais de um ano depois da agressão ter ocorrido, o jovem de 20 anos foi condenado a uma pena de prisão de seis meses, seguida de três em liberdade condicional. Pena demasiado leve, diz a defesa e a verdadeira onda de opinião pública que, por fim, se parece solidarizar com uma vítima. E um dos fatores que está a gerar mais revolta é o facto de a pena, que poderia ir até aos 14 anos de prisão, ter sido atenuada graças não só às referências sobre “o papel do álcool no ato”, como à influência de uma carta escrita pelo pai do agressor e que o juiz permitiu que fosse lida durante o julgamento.

Entre muitas das coisas perfeitamente irrelevantes escritas neste documento, o progenitor alega que o seu filho sempre gostou de comer e que se deliciava a vê-lo a comer grande nacos de carne. Contudo, atualmente pouco come por causa do mal estar provocado por esta situação. Diz o pai que o seu filho “nunca mais irá ser o rapaz relaxado e sorridente” que era antes, que a sua vida “nunca irá ser aquela que sonhava alcançar e pela qual tanto trabalhou”. Como Brock “não tem antecedentes criminais”, nem sequer algum dia “foi violento”, o seu pai acha que a prisão é um castigo demasiado pesado, tal como toda a ansiedade e tristeza que inundaram a vida do jovem. “Um preço excessivo a por apenas 20 minutos de ação em vinte anos de vida”. Será que este senhor tem mesmo real noção do que acaba de dizer?

Percebo que um pai queria proteger um filho até às últimas consequências, faz parte do instinto de sobrevivência e de proteção inerentes ao amor maior, o tal que não se explica. Mas toda esta carta – e o facto de ser sido tida em conta como atenuante - não é mais do que uma ofensa grave ao que envolve um abuso sexual e a todas as vítimas que já passaram por semelhante situação. O que para o pai deste homem que violou uma mulher inconsciente foram “apenas 20 minutos de ação”, para aquela vítima é uma vida inteira. E isso, seja em que situação for, nunca pode ser chutado para o lado.

A dor de uma violação não dura apenas o tempo em que a agressão sexual decorre. Seguem-se anos – por vezes uma vida – de culpa, nojo, raiva, medo, vidas sexuais tantas vezes irreversivelmente deficitárias, perturbações emocionais, psicológicas, físicas. Feridas abertas que raramente saram totalmente. E para as quais muitas vezes as autoridades competentes nem sequer conseguem ter resposta, quanto mais capacidade de fazer justiça.

O jovem Brock, também para atenuar a sentença, manifestou diversas vezes vontade de criar um programa no seu campus universitário para consciencializar os alunos mais novos para a “cultura de bebedeira” e os atos promíscuos que muitas vezes resultam desse estado alcoolizado. Em resposta, a vítima questiona – e bem - esta intenção e o peso que pode ter tido na decisão final em tribunal. "Cultura da bebedeira no campus, é realmente contra isso que estamos a protestar? Vocês acham que foi contra isso que eu passei o último ano a lutar? Pelos vistos não foi contra os ataques sexuais nas universidades, as violações ou a necessidade de se aprender a reconhecer o conceito de ‘consentimento’, mas sim contra a cultura da bebedeira no campus. Entendem ao menos que ter um problema com bebida é bem diferente de tentar ter sexo com alguém contra a sua vontade? Ensinem os homens a respeitarem as mulheres em vez de se ficarem por os ensinarem a beber menos."

Um violador pode ser um tipo simpático

Um violador até pode ser um tipo habitualmente simpático, um pai de família, um trabalhador esforçado. A larga maioria destes casos, dizem as estatísticas, não acontecem com psicopatas, mas sim com tipo aparentemente normais e bem educados. Mas nada disso os torna menos criminosos. Tal como uma violação dentro de um campus universitário é uma violação, tão simples quanto isso, nem mais nem menos grave. Se demorar 5 minutos em vez de 20 isso não a torna menos crime, nem o agressor menos criminoso. Todas estas justificações e atenuantes que envolvem este caso são uma forma bem demonstrativa da forma como se continua a menosprezar e menorizar a dimensão este crime.

Números da Casa Branca, apresentados no início deste ano, revelavam que pelo menos 10% das estudantes universitárias no Estados Unidos tinham sofrido, em 2015, algum tipo de ofensa sexual. Sei que esta é terceira semana seguida em que foco este tema, por motivos diferentes, e que corro o risco de me repetir. Mas a verdade é que esta é mesmo uma realidade transversal e demasiado comum. Tão comum que caímos no gigante erro e inconsciência de a tornar mais ou menos aceitável. Quem me dera que assim não fosse e que não tivesse de escrever sobre isto tantas vezes.