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Expresso

EUA: adolescente viola, mata e filma

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Houston, Estados Unidos. Na semana passada, um miúdo de 15 anos mandou um sms à sua namoradita – da mesma idade – desafiando-a para faltar às aulas à tarde e irem passear juntos. Quem é que durante a adolescência não o fez? Karen Perez primeiro recusou, avisando-o que os pais ficariam chateados caso faltasse às aulas. Depois, com medo, acedeu: por sms, o namorado garantia que a matava caso ela não viesse ter com ele. Karen foi e nunca mais voltou. Foi dada como desaparecida e o seu corpo acabou por ser encontrado esta semana. O primeiro a chegar ao criminoso foi o pai do rapaz que, ao decidir participar nas buscas da miúda, teve como resposta do filho um lacónico “escusas de ir porque ela está morta”. Decidiu levar o filho à polícia e o que encontraram no telemóvel do adolescente foi um cenário de horror: não só violou a namorada num complexo de prédios abandonados, como a estrangulou até à morte. A gravação de todo o crime foi feita com o telefone e guardada para recordar quando lhe apetecesse.

Mais uma vez surge a indignação em massa quando o caso é relatado na imprensa. Mas também surgem os comentários inacreditáveis que – voltamos ao mesmo – questionam a culpa a vítima no processo. “Quem mandou ela faltar às aulas para se encontrar com o namorado?”. “Tem quinze anos, é muito nova para namorar”. “A culpa é da mãe que não proibiu o namoro”. “Como é que uma miúda bonita e educada se envolve com um tipo destes?”. “As miúdas hoje também não se dão ao respeito”. O que as pessoas que escrevem frases destas parecem nunca perceber é que só há um culpado nesta história: aquele que cometeu o crime. E em vez de questionarem por que é que uma adolescente se deixa levar pela coação de um namorado – quantas pessoas adultas vivem a mesma situação e não têm estrutura emocional para a contornar? – deveriam focar a sua indignação no agressor e não na vítima.

O que é que levou um miúdo de 15 anos a cometer um crime destes? O que é que o levou a violar a namorada? O que é que o levou a estrangulá-la até á morte, enquanto ela lhe gritava “por favor não quero morrer!”? Por que é que gravou isto tudo e levou consigo no telemóvel? Para recordar? Porque se orgulha? Para regozijar-se perante os amigos? Porque acha que ela mereceu? Porque é o exemplo que tem à sua volta? Tudo isto nos leva a uma constatação que não pode ser eternamente chutada para o lado, com total inércia: a violência contra as mulheres continua a ser um drama transversal e universal. E muitos dos nossos adolescentes de hoje estão a beber dos exemplos que os rodeiam – e não apenas os filmes, entenda-se -, perpetuando o ciclo mais uma vez. Seja no Brasil, no Estados Unidos, no Paquistão, em Portugal.

Estes vídeos são troféus?

Ainda há uma semana por aqui falava do caso monstruoso da miúda de 16 anos que foi violada por 33 homens no rio de Janeiro. Também nesse caso hediondo os atacantes fotografaram e filmaram, chegando mesmo a partilhar as imagens nas redes sociais. Parece começar a ser um cliché este orgulho na agressão, esta necessidade de guardar uma recordação de um ato que não é mais do que um crime. E há uma pergunta que faço muitas vezes: estaremos perante um conjunto de psicopatas, com requintes de sadismo que passam por guardar uma memória do sofrimento da suas vítimas? Em género de troféu?

Como diria em entrevista à BBC Arielle Sagrillo Scarpati, uma investigadora brasileira de psicologia forense que se tem dedicado ao estudo da violência sexual, a resposta é clara: não. Mas a cultura machista que é perpetuada, mesmo em muitas das sociedades que consideramos mais evoluídas, continua a contribuir drasticamente para a proliferação de tais crimes e para a dificuldade de acolhimento das vítimas na polícia. “Quando olhamos para a literatura sobre o tema observamos que a maioria dos casos de violação são cometidos por agressores que não têm nenhuma patologia. Temos esta ideia de que um violador é um monstro, um psicopata, mas na verdade a maioria desses homens são aquilo que chamamos de ‘homens normais’, tidos muitas vezes como boas pessoas”, explica Scarpati. “A maioria de nós acha que a violação envolve sempre o monstro, o beco escuro, a mulher no chão, ensanguentada. Se não for assim, a própria vítima muitas vezes nem reconhece como violência aquilo que sofreu.”

Os atacantes não são obrigatoriamente os tais psicopatas sádicos. Na realidade, a larga maioria destes casos acontece em relações de proximidade. Revela este resumo das Nações Unidas, focado na violência contra as mulheres, que uma em cada 10 raparigas no mundo inteiro passa por atos forçado de cariz sexual e que os seus maiores perpetradores são maridos, namorados ou parceiros. E que de todas as mulheres vítimas de homicídio globalmente, até 2012, estima-se que cerca de metade foram mortas precisamente por esses parceiros ou outros membros da família. Uma percentagem que no universo masculino não passa dos 6%.

Num relatório da Organização Mundial de Saúde que vos sugiro que espreitem, a violência sexual é comparada a um icebergue a boiar: a pontinha do topo fora de água representa os casos denunciados às autoridades. Mas o tamanho gigante do icebergue que não é visível representa a enormidade de casos que nunca chegam a ser reportados. E os motivos para tal são muitos, entre eles a culpa, a vergonha, e o medo, ora do atacante, ora de serem culpabilizadas pelo ato ou descredibilizadas perante as autoridades. Até quando vamos permitir que isto seja assim?