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Expresso

Podem parar de usar os telemóveis nos concertos?

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Adele no concerto no MEO Arena em maio 2016

FOTO TIAGO PEREIRA SANTOS

Se há coisa que se tornou irritantemente normal nos últimos anos é irmos a um concerto e acabarmos rodeados de pessoas que, em vez de desfrutarem do espetáculo, passam o tempo todo a sacar dos telemóveis para fotografarem e filmarem o que estão a ver. Sem se importarem com os avisos de proibição à captação de imagens (tão bem claros nos ingressos), nem muito menos se estão a importunar a visão dos restantes espectadores, que além de terem de lidar com as eternas cabeças mais altas à sua frente, agora também enfrentam o buraco negro provocado por aparelhos tecnológicos como – inacreditável! – tablets pouco práticos, daqueles com dimensões gigantes. Perdeu-se o pudor de infringir as regras, tal como se perdeu o pudor pelo incómodo gerado às outras pessoas que foram ali para assistir a um espetáculo sem quadrados luminosos à sua frente. Mas, acima de tudo, parece que se perdeu o respeito pelos artistas que estão em palco a dar o seu melhor a uma audiência que, cada vez mais não parece querer vê-los com os seus próprios olhos, mas sim através de um ecrã de telemóvel.

Acho que foi mais ou menos isto que irritou a maravilhosa Adele durante um concerto em Itália, onde a meio do espetáculo decidiu interromper tudo e dar um recado ao público. “Queria só pedir a esta senhora: importa-se de parar de filmar? É que eu estou mesmo aqui na minha vida, pode desfrutar disto na vida real em vez de através de uma câmara”. Uma frase que resume tudo e que deveria servir de exemplo.

Ainda me lembro dos meus tempos de adolescente, quando ia para os concertos do Bryan Adams, munida de máquina fotográfica (com rolo, claro) escondida numa mochila, além de um daqueles pré-históricos gravadores de cassete, na esperança de conseguir trazer um bocadinho do meu ídolo para casa. Isto parece que foi há milhões de anos, numa altura em que a Internet era um mundo exótico, onde não havia YouTube para ver vídeos das nossas bandas preferidas, nem muito menos redes sociais onde os artistas partilham diariamente com os fãs as suas novidades e até o que lhes vai na alma. No máximo, tínhamos posters para pendurar na parede e cassetes para ouvir até à exaustão, mesmo que a fita tivesse de ser enrolada com uma caneta Bic graças ao excesso de uso. Ou seja, conseguir uma imagem furtiva ou um bocadinho de som de um concerto era um privilégio. Mesmo assim, o que invariavelmente me acontecia era que estava tão entusiasmada a cantar e a gritar ao senhor Adams que o amava que mal tirava fotos. E na gravação nunca se ouvia muito mais do que a minha voz de adolescente esganiçada.

Concertos, telemóveis e validação pessoal nas redes sociais

Hoje em dia não é bem isso que acontecesse. Lembro-me, por exemplo, do recente concerto de Bruce Springsteen. Cada vez que o senhor cantava uma música das mais conhecidas, estilo “Born in the USA”, não era o coro de vozes que se levantava para cantar: eram os braços com os insuportáveis telemóveis a filmarem o momento. Pergunto eu: Não seria melhor vivê-lo do que filmá-lo? será que alguma daquelas pessoas estava a desfrutar mesmo do privilégio de ouvir aquela música ao vivo? Ou será que simplesmente perdeu a essência do momento porque o viu através de um micro ecrã, em vez de olhar para o artista e cantar em coro com ele?

Já agora, será que era assim tão importante gravar aquilo e partilhar nas redes sociais, como forma de validação, bem eu género do ‘eu estive lá e ouvi isto’? Basicamente, muito disto se resume precisamente com a palavra validação. A tendência preocupante dos nossos tempos de precisarmos de mostrar ao mundo que estivemos num sítio, como se no caso de não haver uma foto, isso na realidade não tivesse acontecido. O que podia ser um momento memorável passou a ser muitas vezes efémero e vazio no que toca a vivência real. Um comportamento que me parece ridículo e alienante, e que se estende a muitas outras situações.

Claro que às vezes é bom recordar. Já me aconteceu ir ver os Arcade Fire e, ao chegar a casa, agradecer a todos os santinhos o facto de o concerto ter sido transmitido em direto e de estar à minha espera na box da televisão. Acabei a vê-lo novamente no dia seguinte, é certo. Mas não há nada que iguale aquele momento ao vivo, em que toda a experiência nos invade os sentidos – e a música tem definitivamente este condão. Como diria Adele em Itália (espreitem o vídeo em baixo), “isto não é um dvd, é um concerto ao vivo. Aproveitem porque há muito gente que queria aqui estar e não conseguiu”. Foi mesmo para verem o concerto pelo ecrã do telemóvel que pagaram o bilhete?