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Expresso

Esta mulher salvou 18 mil pessoas do tráfico humano

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Neste preciso momento mais de dois milhões de pessoas estão a viver presas nas malhas do tráfico humano. Prostituição, pornografia, casamentos forçados e trabalho escravo são apenas algumas das coisas a que estão a ser sujeitas, sob violência extrema e coação psicológica, sem escapatória possível. Desse bolo total de vítimas, a larga maioria são mulheres, mas cerca de 30% são também crianças. Enquanto muitos de nós olhamos para este números, sentimos o estômago às voltas, ruborizamos de indignação, mas voltamos às nossas vidas logo depois, Cecilia Flores-Oebanda não o faz.

Há 25 anos que esta mulher filipina se dedica a resgatar vítimas de tráfico humano – com especial enfoque nas crianças - e o seu trabalho rendeu-lhe na semana passada uma distinção especial durante a Cimeira e Prémios Child 10, em Nova Iorque. E por que é que dedica a sua vida a esta causa? Porque também parte da sua infância foi passada em trabalho forçado para fugir às teias da pobreza. Aos cinco anos já vendia peixe na rua e aos sete dedicava os seus dias à podridão das lixeiras, onde tentava catar qualquer objeto que pudesse render algum dinheiro à família. Durante a adolescência revoltou-se e tornou-se guerrilheira anti-regime no período de Marcos. Foi presa e torturada, viu amigos a serem assassinados à sua frente. Passadas as tormentas da ditadura, pensava no que tinha passado na prisão e chegava sempre a uma conclusão: “nada disto consegue ser pior do que o que as crianças forçadas trabalhar passam”.

No início dos anos 90 decidiu que era a essas crianças que iria dedicar a sua energia. Criou a organização não-governamental Visayan Forum, que começou por se dedicar a ações no terreno para resgatar crianças. Num país onde só em 2013 se estima que tenham sido traficadas cerca de 400 mil pessoas, o caminho é penoso e só com uma enorme rede de parceiros é que estas missões de salvamento puderam resultar. Cecilia criou parcerias com serviços portuários e empresas de navegação, a quem dá formação constante para que os seus funcionários saibam interpretar os “alertas vermelhos” de possíveis vítimas transportadas de barco entre as mais de 700 ilhas das Filipinas.

“Não basta salvar vítimas, é preciso mudar mentalidades”

Com a ajuda de uma gigante rede de voluntários e donativos privados, já salvou mais de 18 mil pessoas, principalmente menores e mulheres. Criou também abrigos provisórios para as vítimas e agora dedica-se a ações de sensibilização em mais de 300 escolas do seu país. Numa entrevista ao Huffington Post, Cecilia esclareceu porquê: “Percebemos que resgatar vítimas e mudar leis não é suficiente, também temos de alterar a perspetiva das pessoas. Somos um país de emigrantes, todos nascemos a pensar que ir trabalhar para fora é o primeiro passo para sair da pobreza e que de alguma forma é normal mandar as crianças para esse rumo”, explica a ativista, multi-premiada pela seu trabalho. “ É preciso ensinar os jovens a protegerem-se. Estamos em escolas a ensinar os alunos sobre o que é o tráfico humano e a tentar mudar a sua forma de pensar, deixando claro que não é normal ou aceitável vender o corpo em troco de um telemóvel.”

Mas para mudar mentalidades não basta ir às escolas do país de origem de muitas das mulheres e crianças traficadas. É preciso também ir aos países de origem dos que consomem as ofertas resultantes deste tráfico, tais como a pornografia ou redes de prostituição. Atualmente, Cecilia divide o seu tempo também nos Estados Unidos, onde tenta espalhar a palavra: “Se a procura continuar, o tráfico não acaba. Mesmo que estejas na outra ponta do mundo, não podes abusar das nossas meninas. Seja na privacidade do teu quarto, atrás de um computador, estás a violar a nossas meninas à mesma. Acredito que se os rapazes forem educados neste sentido, um dia vão deixar de clicar neste conteúdos.”

Não há solução simples para o tráfico humano. As ligações tentaculares deste negócio execrável – que gera mais de 2 mil milhões de euros por ano - parecem estender-se a um sem fim de indústrias, desde o turismo à pornografia, contrabando, venda de órgãos e terrorismo. Um tipo de crime que atravessa o mundo inteiro, totalmente impune, invisível aos cidadãos e ignorado por políticos que fingem não ver. Ou que dependem desta grande rede para manter a sua vida de ostentação. Ainda bem que existem pessoas como Cecilia Flores-Oebanda que não deixam que este verdadeiro drama dos nossos tempos seja ignorado.