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Expresso

Se eu estiver com o período não me posso ver ao espelho

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d.r.

Imaginemos que quando aparece o período pela primeira vez a uma adolescente, o seu destino seria ficar afastada de casa durante aquele dia, sem que lhe explicassem sequer que é normal sangrar ou ter dores. Ou que durante os anos que seguem, lhe garantem que comer papaia durante aqueles dias é pecado e que se tocar por exemplo, em pickles, eles vão apodrecer. Ou que olhar-se ao espelho durante a menstruação é impuro, tal como tocar nos irmãos rapazes ou até mesmo comer na mesma mesa que a família.

Já por aqui tínhamos falado das restrições baseadas numa tradição religiosa secular apelidada por chhaupadi, que em 2006 o Supremo Tribunal do Nepal declarou ser ilegal mas que continua a ser prática comum. Basicamente, as mulheres e meninas são enfiadas em “tocas menstruais” durante os dias em que estão com o período, ficando sujeitas a perigos potencialmente fatais como o ataque de animais, temperaturas demasiado baixas ou até violência sexual. Tudo isto para que não contaminem ninguém em casa com a sua suposta impureza.

Longe das montanhas mais recônditas do Nepal, onde se pratica o chhaupadi, a realidade não é tão drástica, mas as superstições e mitos continuam a ser uma realidade passada de geração em geração nas zonas rurais. A diferença é que cada vez mais as meninas questionam-se e, em privado, tentam falar com as amigas e irmãs mais velhas sobre a veracidade do que lhes é dito. Muitas ousam quebrar as regras e experimentam arriscar para ver se realmente algo acontece. E, é claro, não há pickles que fiquem podres, nem muito menos espelhos que se partam com a imagem da suposta impureza.

Retratos: mitos da menstruação na primeira pessoa

Este fim de semana assinalou-se o Dia da Higiene Menstrual e a organização Water Aid tornou público o resultado de uma experiência bem interessante: as fotografias tiradas por jovens adolescentes em zonas rurais do Nepal, sob o tema “restrições na menstruação”. A cada uma foi dada uma máquina fotográfica e liberdade total para explicarem por imagens e legendas curtas o que é que lhes aconteceu na sua primeira menstruação e que tipo de mitos lhes continuam a ser vendidos.

O resultado - que podem ver aqui na totalidade - são uma série de mini-relatos de situações e pormenores sobre os quais muitas de nós já nem sequer pensam, mas que influenciam drasticamente a vida destas miúdas durante algo que deveria ser encarado como um processo biológico normal. Além das superstições, há as questões de higiene: pouca disponibilidade de água para se lavarem, falta de sítios com privacidade para lavarem as nódoas da roupa interior, falta de condições nas casas-de-banho das escolas, onde as portas muitas vezes nem sequer fecham. Tudo isto se traduz em falta de dignidade.

A curiosidade masculina e consequentes atos abusivos – vistos com certa normalidade pelas comunidades rurais - leva também a que muitas destas garotas sejam proibidas pela família de irem à escola durante a menstruação, situação que obviamente as atrasa no processo de ensino. Muitas vezes as famílias chegam mesmo a achar que mais vale as filhas ficarem a desenvolver trabalho doméstico em casa, em vez de estarem expostas a possíveis ataques sexuais que podem resultar em gravidezes e, obviamente, desonra.

Uma bola de neve que as encaminha para casamentos ainda em tenra idade, perpetuando o ciclo de pobreza, e perpetua a regressão na educação e nas oportunidades destas futuras mulheres. Por algo tão simples e natural como ter o período. Dá para acreditar?

d.r.

O resultado - que podem ver aqui na totalidade - são uma série de mini-relatos de situações e pormenores sobre os quais muitas de nós já nem sequer pensam, mas que influenciam drasticamente a vida destas miúdas durante algo que deveria ser encarado como um processo biológico normal. Além das superstições, há as questões de higiene: pouca disponibilidade de água para se lavarem, falta de sítios com privacidade para lavarem as nódoas da roupa interior, falta de condições nas casas-de-banho das escolas, onde as portas muitas vezes nem sequer fecham. Tudo isto se traduz em falta de dignidade.

A curiosidade masculina e consequentes atos abusivos – vistos com certa normalidade pelas comunidades rurais - leva também a que muitas destas garotas sejam proibidas pela família de irem à escola durante a menstruação, situação que obviamente as atrasa no processo de ensino. Muitas vezes as famílias chegam mesmo a achar que mais vale as filhas ficarem a desenvolver trabalho doméstico em casa, em vez de estarem expostas a possíveis ataques sexuais que podem resultar em gravidezes e, obviamente, desonra.

Uma bola de neve que as encaminha para casamentos ainda em tenra idade, perpetuando o ciclo de pobreza, e perpetua a regressão na educação e nas oportunidades destas futuras mulheres. Por algo tão simples e natural como ter o período. Dá para acreditar?