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Expresso

Violada por trinta homens, mas a culpa foi dela

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Não há outra forma de resumir isto: 30 homens, repito, trinta homens violaram uma miúda de 16 anos no Rio de Janeiro. Trinta homens que em conjunto decidiram vingar um ex-namorado despeitado. No fim de tamanha brutalidade, filmaram a vítima, visivelmente ferida e inconsciente, gozaram com a situação com frases de escárnio como “engravidou de 30” ou “fizeram um túnel na ‘mina”. Numa imagem, um homem posa de língua de fora ao lado dos genitais ensanguentados da menina. Visivelmente vaidosos do seu ato, publicaram o vídeo nas redes sociais. E o que se seguiu não foi melhor do que esta barbárie indiscritível.

Se para muitos dos que se cruzaram com tais imagens – entretanto apagadas, tal como os perfis de quem as partilhou – a indignação e a repulsa eram as reações iniciais, para muitos outros não foi bem assim. Um pouco por todo o Brasil se fala da violação coletiva desta adolescente e se o crime em si já era totalmente indescritível, a alarvidade de comentários de culpabilização à vítima não fica atrás. “Era toxicodependente”, dizem uns. “Andava de mini-saia”, dizem outros. “Já tinha um filho com esta idade”, dizem também. Como se alguma destas coisas pudesse servir de justificação para que um crime como este possa ser praticado. Como se a culpa de 30 homens se terem juntado para violentar o corpo de uma pessoa, fosse na realidade da mulher.

Tudo isto aconteceu esta semana, no país que está à beira de receber os Jogos Olímpicos e milhares de pessoas de todo o mundo para assistirem ao evento. Um país que eu adoro, onde quero sempre voltar. Mas sobre o qual eu – e todos os nós – temos de ser realistas: ainda tem muitíssimo para crescer enquanto sociedade. Um país onde os índices de violência são astronómicos. Um país onde a discriminação racial é uma flagelo. Onde as discrepâncias sociais se eternizam, varridas para debaixo do tapete quando é preciso trazer o mundo ao Rio de Janeiro. Um país onde a cultura machista e misógina prevalece, desde o meio rural à política. Basta olhar para este novo Governo de Michael Temer, onda não há uma única mulher. Em tantos milhões de habitantes de um país onde as mulheres, já agora, são a fatia mais grossa do eleitorado, não há uma única com capacidades para fazer parte da equipa de Temer? Que mensagem é esta de total menorização da mulher que está a ser passada precisamente por quem gere um país que precisa urgentemente de evolução social?

A cada 11 minutos uma pessoa é violada no Brasil

Este país, cujo novo Governo acaba de exterminar o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, é o país que onde 30 homens violam uma adolescente e se regozijam do ato nas redes sociais. Onde se sentem visivelmente impunes para o fazer (e a verdade é que até ver só dois suspeitos foram detidos e ainda há quem defenda que os que eram menores não devem ser punidos). Onde criaturas destas – desculpem, não consigo continuar a chamar-lhes homens - são apoiados por milhares de outras pessoas, que justificam a barbárie com frases como estas: “quem se mistura com porcos farelo come. Errado de quem fez, muito mais errado ela que os procurou”; “a culpa é dela mesmo, coloca roupinha sensual semi-nua e quer o quê? A gente só acha o que procura, ela mereceu!”; “vivemos num tempo em que as mulheres nem se valorizam, depois querem ser as coitadinhas”; “ninguém é estuprada em casa lavando loiça”.

O que muita gente se esquece, é que a violência sexual é um drama transversal. Que as tais mulheres e meninas “belas, recatadas e do lar” são igualmente vítimas de abusos, tantas vezes por parte dos próprios maridos, namorados, pais, padrastos, tios, etc. De acordo o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, referente a 2014, a cada 11 minutos há uma violação a acontecer no Brasil. A larguíssima maioria das vítimas, mulheres. Não tentemos justificar o injustificável com recurso à roupa, aos consumos ou à conduta. Não há nada que possa menorizar este crime. Um crime que acontece por todos os extratos sociais do Brasil. Porquê? Porque numa sociedade ainda nitidamente machista, a violência contra a mulher é aceite culturalmente.

Em trinta criaturas que violaram uma miúda de 16 anos não houve um que se indignasse. Que chamasse a polícia. Que tentasse pôr fim. Pelo contrário, houve gozo coletivo, paródia, total desprezo pela vida daquela pessoa violentada quase até à morte. Orgulho no crime e desvalorização da violência extrema. E isto merece uma gigante reflexão. Que pode começar em todos nós, que temos crianças, futuros adultos, para criar. Nos exemplos que lhes damos desde cedo, seja com piadinhas sexistas que rebaixam a figura feminina perante a masculina, seja com a perpetuação de juízos de valor às nossas próprias filhas quando elas querem usar, por exemplo, uns calções curtinhos.

Ninguém é uma galdéria por causa de um decote. Tal como ninguém tem o direito sobre o corpo de ninguém, quer essa pessoa esteja alcoolizada, quer essa pessoa já o tenha feito anteriormente. Quer seja namorado ou marido. Regra base para homens e mulheres: o meu corpo é só meu. E nele só toca quem eu autorizar. Quem não perceber isto está a incorrer num crime grave. Estes 30 homens são criminosos, não há outra palavra a usar. E espero que sejam severamente punidos.