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Expresso

Não dances que é pecado

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Lembro-me de há uns anos estar a entrevistar a deliciosa Mallu Magalhães e de ela me ter dito que uma das coisas que mais gostava na sua vida em Lisboa era das aulas de ballet. “Sou a pior aluna da turma, mas sinto-me uma princesa”. Na altura revi-me naquela descrição. Já há uns anos que vou calçando os sapatos de dança para ter aulas de tango e, embora não me sinta uma princesa, há algo de mágico em deixar o corpo e o cérebro libertarem-se ao som de um bandonéon. Como se o mundo parasse lá fora e tudo se resumisse àquele compasso, mesmo que a destreza não seja a melhor. Ambas nos rimos quando falámos sobre isto, algo que fizemos numa esplanada, despreocupadamente. Agora imaginemos que esta conversa podia ser motivo para acabarmos num interrogatório policial. No Irão, ainda é mais ou menos isso que pode acontecer.

Este fim de semana cruzei-me com uma reportagem da jornalista Beulah Devanev, intitulada ‘As Bailarinas Ilegais do Irão’. Um texto que relata a história de Ada, uma jovem iraniana de 28 anos que decidiu embarcar em aulas de dança, uma atividade que se tornou proibida com a revolução de 79. Se para nós ir dançar é algo que depende exclusivamente da nossa vontade, para os iranianos não é bem assim. “Está tudo bem desde que não tenhas prazer”, explica a figura central da reportagem. “A partir do momento em que a dança e o seu movimento te deem prazer, é pecado.”

Aulas de dança a dois, tipo as minhas de tango, já nem sequer são postas como possibilidade viável. Nunca uma milonga seria aceitável, o contacto entre homens e mulheres é algo pecaminoso e, obviamente, motivo para prisão. Não é o caso do ballet, mas a proibição mantêm-se. Mas há quem esteja disposto a correr o risco, como Ada. Se for apanhada sabe que pode não só acabar a ser expulsa da sua universidade por comportamentos subversivos, como também ir parar à prisão.

Aulas em caves, sem música

Posto isto, as aulas são dadas em lugares escondidos, desde caves de hospitais a casas particulares. Muitas das vezes nem sequer incluem música, só mesmo o compasso cantarolado pelo professor. Qualquer barulho a mais pode revelar o que se está a passar dentro daquelas quatro paredes e surgir uma denúncia. Para se conseguir entrar neste mundo não é fácil. Não há páginas de Facebook a anunciar as aulas, nem muito menos panfletos distribuídos na rua. Os professores só aceitam novos alunos que sejam pessoas de confiança dos que já fazem parte das aulas. É um palavra passa palavra onde o secretismo é regra de ouro. Quando alguém chega pela primeira vez, as cartas são postas em cima da mesa: os professores não podem garantir a segurança de ninguém. A qualquer momento a polícia pode aparecer e prendê-los a todos por estarem numa aula de dança.

A reportagem conta ainda a história da uma mulher que se atreve a fabricar sapatos de ballet. A sua página de Instagram é seguida por milhares de pessoas, muitas delas dançarinas secretas, outras simples aficionadas de sabrinas. Para esta mulher, o risco está de certa forma protegido: “Eu produzo sapatos de dança. Ninguém me pode prender por fazer sapatos”. Mas a ousadia inerente pode levantar-lhe problemas graves.

Claro que muitas vezes este pecado em forma de dança consegue ser contornado se o dançarino tiver boas maquias de dinheiro para pagar à polícia. É a história do mundo. De repente, o pecado deixa de ser tão grave. Mas mesmo sem dinheiro são muitos os que continuam a infringir as regras, um sinal claro do tal lado provocador dos filhos do Islão, sobre o qual já por aqui falámos há uns tempos. Ao todo, mais de 50% da sociedade iraniana é composta por pessoas com menos de 30 anos, que representam uma das atuais maiores ameaças a longo prazo ao atual governo teocrático. Uma geração provocadora, informada, reativa, tolerante e inconformada, que não se cala, por mais que os seus desejos continuem a não ser ouvidos por quem gere o país sob a sombra do extremismo religioso. Algo que não define aquilo que o Irão é na sua essência.

Espreitem a reportagem aqui, vale a pena ler. A mudança está a caminho, mas como diria Ada, o caminho é demasiado lento.